A necessidade do conflito

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Quando leio biografias percebo nitidamente a necessidade do conflito pessoal na vida de cada um e também a necessidade do conflito nas obras de ficção. O estranho é que muitos acham o conflito literário uma arma boba para manter o interesse do leitor à história. Não vejo assim: a existência do conflito é a mágica que aproxima a ficção da realidade de forma que, um livro (bom) de ficção equivale a um livro de história, política, comportamento, entre outros e até mesmo os próprios livros biográficos, pois tudo está nos olhos do leitor que, se suficientemente perceptível, é capaz de compreender também a respeito da humanidade através de uma boa história ficcional, que nada mais é que uma metáfora da vida real.

Lendo a biografia de Virginia Woolf percebo cada vez mais a importância da vida dela ter sido exatamente como foi, e se ela tivesse sido menos depressiva, menos superficial ou mais alegre, mais solidária e mais apaixonada sua obra não teria se tornado imortal. Pois, com toda a certeza da minha ignorância literária, afirmo que a vida real do escritor está impregnada em sua obra ficcional, por mais que, superficialmente, isso não seja possível visualizar, está lá! Como se tudo fosse uma única coisa: que move pessoas, conflitos, vidas e a humanidade.

E olhando para mim e para meus amigos percebo também a necessidade de vivermos bem os nossos conflitos, de aceitá-los e encará-los para, assim, construirmos nossa obra aos olhos de quem vê e, principalmente, para nós mesmos – aquela idéia de olhar no espelho e gostar do que se vê – eu gosto do que vejo: com todos os conflitos, alegrias, lamúrias, sorrisos, lágrimas e leveza que só uma vida plena pode dar. Eu aceito meus conflitos, pois através dele sinto sede da vida; do conhecimento; do sentimento; de avançar sempre mais rumo ao conhecimento. Assim como um bom livro que, no começo é só uma história, mas à medida que as páginas avançam torna-se uma bela história de conflito, de conhecer o caminho, de política, de história, de comportamento, de verdades e mentiras, de ser humano, de guerra, de ternura, de amor, de paz, de viver.

Por:

Francine Ramos é formada em Letras Português/Inglês, trabalha com Tecnologia Educacional e em 2011 criou o Livro&café. O que ela quer é ser professora de literatura, ter uma boa biblioteca particular, viajar e ler Virginia Woolf. Tudo isso e mais, sem esquecer do café.

  • http://ilovecloudydays.tumblr.com/ Rubia

    Tenho um certo receio com biografias pois elas parecem carregar o fardo de terem que representar o biografado de maneira surpreendente. Prefiro diários ou cartas, onde a personalidade da pessoa vai se mostrando, se delinenando sozinha.
    Mas conte mais, quando puder, suas impressões sobre essa biografia.
    Concordo que a vida e seus conflitos influem muito na obra e acho que, com certeza, Virginia Woolf não teria sidoVirginia Woolf se ela tivesse sido menos depressiva, ou mais alegre, mais solidária, mais apaixonada.
    *Você fala em “menos superficial”… a que se refere?

    • http://www.acontadora.wordpress.com Francine Ramos

      Oi, Rubia!

      A Vanessa Curtis comenta sobre a tal superficialidade de Virginia Woolf:

      “Foi o que transformou o “Anjo da Casa” num fantasma tão difícil de matar, porque representava as qualidades menos agradáveis de Virginia, a supressão, o artifício, a autodepreciação, a culpa e a superficialidade.”

      Em outra passagem do livro, ela conta que Virginia Woolf sentia um certo nojo de ver pessoas comendo demais e debochava muito dos gordinhos (as). Quando escrevi, me referi a isso: Se ela não fosse tão superficial, ao ponto de não se aproximar de pessoas gordas por puro preconceito, talvez ela não fosse quem ela era.

      Como é a primeira biografia de V. Woolf que leio, estou gostando. Porém sinto perfeitamente que a autora quer o tempo todo nos afirmar as suas impressões sobre a Virginia e não, simplesmente, expor informações a respeito da vida dela e deixar para o leitor as conclusões.

      Sim, as cartas, os diários…são realmente melhores, concordo com tudo que disse: “a personalidade da pessoa vai se mostrando, se delinenando sozinha.”
      Muito se fala da depressão de Virginia Woolf, criando um ar de dor, sofrimento e tristeza muito grande, como se tudo o que ela tivesse produzido fosse profundamente triste. Eu não consigo vê-la assim. Em muitos trechos me divirto tanto! Ela era uma mulher incrível, com um senso de humor muito afinado e um olhar tão bonito sobre a vida: os pequenos gestos, os pequenos detalhes que, se não fossem pelos olhos dela, seriam tão bobos. Mas ela fez dessas narrações algo tão perfeitamente belo ao ponto de eu sempre acreditar que o que ela queria mostrar é que a vida é algo tão precioso, que vale tanto a pena…Mas então penso: porque ela se matou? Esse é o grande mistério, mas não maior e melhor que toda a sua obra.

      (me empolguei…rs)

      Um beijo!

  • http://www.achados--e--perdidos.blogspot.com Karina

    Sim, isso é verdade. Estou lendo a biografia da Clarice, escrita pelo Benjamin Moser e, depois de ler o seu post, posso dizer que ela também, sem os conflitos que teve em vida, não teria deixado uma obra imortal.

    Me interessei por essa biografia da Virgínia. Lerei assim que possível

    Beijos!

  • Gerana

    Estou verdadeiramente encantada com seu espaço. Agora irei no seu outro blog.

  • http://invanillasky.blogspot.com Isa

    no conflito é onde a pessoa se conhece mais. é quando se mergulha dentro de si. a gente vive em crise pela necessidade de aperfeiçoamento. leio bem pouco desses autores (Clarice, Virginia…), mas você me faz ficar interessada. quero ler mais.

  • http://rosangelaneres.com/ Rosangela

    Com certeza, as marcas de autoria estão sim presentes na obra dos autores. Acredito que os escritores contemporâneos já sacaram que isso é um ponto importante na ficção e, com o resgate da biografia, das cartas e memoirs, isso tem se intensificado cada vez mais. Nunca se publicou e vendeu tanta biografia como do ano passado para cá.

    Amei seu texto!!

  • http://artigosemvalor.blogspot.com/ Guilherme

    sou obrigado a concordar. as pessoas gostam de dramas pessoais e pessoas que encaram isso de forma aberta e esclarecida

  • http://chadascincodiariovirtual.blogspot.com/ Erika

    Eu sou suspeita para falar, acho que na literatura, assim como na música, só seres intensos fazem algo realmente valoroso e como é impossível ser intenso sem viver conflitos…E quando falo de intensidade e de conflitos, não tem nada a ver com “ser dramático”, encarar suas dores de frente, olhar seus medos nos olhos pode levar a uma consequência grave: a de ter coisas importantes e impactantes para revelar ao mundo!

  • Alex

    Saudade que eu estava daqui, depois de dias vendo a mosca de Katherine, coitada. haha

    Concordo com tudo o que disse, sobretudo a parte sobre Virginia. Se ela tivesse sido uma Thalita Rebouças da vida (haha), com certeza não teria criado tanta beleza melancólica, tanta poesia que é real – porque sentiu tudo e pôs ali no papel para o mundo ver.

    Conflitos, conflitos. A vida fica mais leve quando os aceitamos e os convidamos para um café ou chá de vez em quando.

    :D

    Beijos!