Os heróis e o dinheiro (Camilo Castelo Branco)

Nessa semana, devido ao meu novo vício chamado True Blood, fiquei pensando numa teoria boba: porque todo vampiro tem MUITO dinheiro? Pensei nisto, mas não cheguei a pensar no sentido mais profundo para, ao fim, chegar a um consenso, seja ele válido, bobo ou inútil. Provavelmente seria essas três coisas. Mas Camilo Castelo Branco, o escritor de Amor de Perdição, me presenteou com esse trecho sobre o herói e o dinheiro:

E ficou pensando em sua espinhosa situação. Deviam de recolher-lhe idéias aflitivas que os romancistas raras vezes atribuem aos seus heróis. Nos romances todas as crises se explicam, menos a crise ignóbil da falta de dinheiro. Entendem os novelistas que a matéria é baixa e plebéia. O estilo vai de má vontade para as coisas rasas. Balzac fala muito em dinheiro, mas dinheiro a milhões. Não conheço, nos cinquenta livros que tenho dele, um galã num entreato da sua tragédia a cismar no modo de arranjar uma quantia que pague ao alfaiate, ou se desembarace das redes que um usuário lhe lança, desde a casa do juiz de paz a todas as esquinas, donde o assaltam o capital e juro de oitenta por cento. Disto é que os mestres em romances se escapam sempre. Bem sabem eles que o interesse do leitor se gela a passo igual que o herói se encolhe nas proporções destes heroizinhos de botequim, de quem o leitor dinheiroso foge por instinto, e o outro foge também, porque não tem o que fazer com ele. A coisa é vilmente prosaica, de todo o meu coração o confesso. Não é bonito deixar a gente vulgarizar-se o seu herói a ponto de pensar na falta de dinheiro (…).
Amor de Perdição, pág. 56. Editora Ediouro

Depois desse trecho, Camilo volta à história afirmando que o herói criado por ele, Simão Botelho, não tinha “um puto” no bolso. Sou fã de Camilo Castelo Branco a partir de hoje. E claro, sei que existem outros escritores que tratam da falta de dinheiro, da pobreza nos sertões e tudo mais. Porém estou gostando da história de Simão Botelho que, devido ao amor por Teresa, está acabando com suas economias e agora não tem dinheiro para pagar o curativo que “ganhou” no braço após uma tentativa frustrada de buscar sua amada. Mas vou parando por aqui. A resenha desse livro ficará para outro dia. E, sim, na minha concepção os vampiros (bonzinhos) são heróis.


Francine Ramos

Criou o Livro&Café em 2011, é professora de Língua Portuguesa, adora ler e trabalhar com mediação de leitura. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

Sem comentários

Deixe uma resposta

O seu e-mail não será publicado, fique tranquilo.