Pulp, o último Bukowski, meu primeiro

Resenhas

Viagens curtas pedem livros curtos. Tirei meu primeiro Bukowski da prateleira e fui pegar o próximo ônibus para São Paulo. O que eu sabia sobre ele? Bukowski foi um cara que bebia demais e produziu a boa literatura. A terceira folha do livro dizia “Dedicado a subliteratura”. Sentei no ônibus.

Pulp é o último livro escrito por Charles Bukowski e conta a história do detetive Nick Belane que não faz absolutamente nada para glamourizar sua profissão: não há aparelhos de escutas, carros em alta velocidade ou disfarces e mesmo assim sua vida é uma enxurrada de acontecimentos absurdos: ele conversa com a morte, com alienígenas etc e tal.

Pulp, que significa histórias duvidosas em papel de baixa qualidade, é uma novela para se divertir. Gargalhei sozinha no ônibus. O que será que os passageiros pensaram de mim? Leram a contracapa “o último suspiro do velho safado”?. Viram a capa: a mão segurando uma arma? Pensaram o quê? E o que eu penso agora que conheço Charles Bukowski? O escritor alemão criado na América que fez da literatura seu principal entorpecente.

Debochador, engraçado, genial, confundido com um beat, sem nunca ter sido. Será que tento desvendar esse escritor? Em sua lápide está escrito “Don’t try”. Vou respeitar e continuar a ler suas obras que, no mínimo, provocam estranhos sentidos.

Acordei deprimido. Fiquei olhando para o teto, as rachaduras do teto. Vi um búfalo saltando alguma coisa. Acho que era eu. Aí vi uma serpente com um rato na boca. O sol aparecia nas frestas da persiana e formava uma suástica em minha barriga. A bunda coçava. Estariam voltando as hemorróidas? O pescoço duro, a boca com gosto de leite talhado.
Levantei-me e fui ao banheiro. Me dava raiva olhar o espelho, mas olhei assim mesmo. Vi depressão e derrota. Bolsas escuras caídas sobre os olhos. Olhinhos covardes, os olhos do rato acuado pelo puto do gato. A pele parecia que nem tentava. Que odiava fazer parte de mim. As sobrancelhas caíam retorcidas, pareciam dementes, dementes pêlos de sobrancelhas. Horrível. Uma aparência repugnante. E eu não estava nem querendo evacuar. Todo entupido. Fui à privada mijar. Fiz pontaria corretamente, mas saiu de lado e molhou o chão. Tentei mudar a pontaria, mas acabei molhando a tampa da privada, que esquecera de levantar. Puxei um pouco de papel higiênico e passei no lugar. Limpei a tampa. Joguei o papel dentro e dei descarga. Fui até a janela e vi um gato cagando no telhado ao lado. Aí voltei ao banheiro, peguei a escova de dentes, apertei a bisnaga. Saiu demais. Oscilou sobre a escova e caiu na pia. Era verde. Parecia uma lombriga verde. Meti o dedo nela, pus na escova e comecei a escovar. Dentes. Que coisa da porra. Tínhamos de comer. E comer e comer de novo. Éramos todos repugnantes, condenados aos nossos trabalhinhos sujos. Comer e peidar e se coçar e sorrir e festejar nos feriados.
(Pulp, Charles Bukowski, tradução de Marcos Santarrita, L&PM Pockets, p. 76/77)

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Criou o Livro&Café em 2011, é professora de Língua Portuguesa, adora ler e trabalhar com mediação de leitura. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.
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Comentários

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  1. Nossa!!! adorei a referência. Talvez este seja o livro que preencha o meu tipo de gosto. Eventualmente uma literatura rápida faz muito bem.
    Abraços
    Gustavo MB
    Blog Turismo e Paradigma

  2. Também conheci “o Velho safado” por este livro e na verdade não li todo ainda por conta das atribulações da faculdade… Realmente as poucas paginas que li me fizeram rir muito…hehehe XD Adorei o post visitarei mais, abraço! XD

  3. você expressou bem “…Vou respeitar e continuar a ler suas obras que, no mínimo, provocam estranhos sentidos.” alguns livros e contos dele, fazem você fazer careta ou revirar o estomago, mas ainda assim te prendem

  4. Nunca li, mas já tinha ouvido falar. Embora não soubesse que fosse tão engraçado! Com certeza vou ler!

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  9. Evandro Florscuk

    Garota, eu adoro Bukowski e adorei o que você escreveu. No momento eu estou lendo “A mulher mais linda da cidade e outras histórias”.

  10. Olá, conheci Bukowski a pouco tempo através de seus poemas, Pulp é o primeiro livro que leio do autor, também ri muito com ele. Adorei sua forma de escrever, cínica, debochada, politicamente incorreta, original. Ja estou me preparando para a próxima leitura: “Misto quente”.

  11. Flavia Nasck

    Olá Francine. O velho Buk é realmente inigualável. O Sarcasmo inteligente dele talvez assuste a quem não está acostumado com o tipo de literatura cotidiana “suja” que ele faz. Mas nada mais real, nada mais humano que esse tipo de escrita que é muito natural. Cada escritor tem seu estilo, mas sinto muita falta deste tipo escrita nos dias de hoje, em que a ficção parece progredir muito mais. O único livro que li dele foi Numa fria, o que foi suficiente para considerá-lo um ótimo escritor . Pretendo ler mais livros dele. Só não li ainda porque este ano estou lendo mais nacionais.

    • francineramos

      Oi, Flavia
      infelizmente há um preconceito com a leitura de Buk, o que é uma grande bobagem. Eu já li vários dele e sempre é uma leitura muito legal, divertida e tb profunda. Adoro!

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