As curiosidades narrativas do meu dia (Lionel Shriver)

8 de novembro de 2000

Querido Franklin,

Não sei ao certo por que o incidente banal desta tarde acabou provocando em mim a vontade de lhe escrever. O fato é que, desde que nos separamos, o que mais me faz falta, acho, é chegar em casa e ter a quem contar as curiosidades narrativas do meu dia, do jeito como um gato às vezes larga um camundongo aos pés do dono, as pequenas, modestas oferendas com que os casais se brindam, depois de revolver quintais diferentes. Se porventura você estivesse instalado em minha cozinha, lambuzando pasta crocante de amendoim no pão de Branola, embora fosse quase hora do jantar, eu mal teria tempo de largas os sacos de compras, um deles vazando uma gosma viscosa, transparente, e já estaria vomitando a minha historinha, antes mesmo de reclamar, contrariada, que jantaríamos massa dali a pouco, portanto, será que daria para você fazer o favor de não comer o sanduíche inteiro?

Precisamos Falar Sobre o Kevin. Lionel Shriver, tradução de Beth Vieira e Vera Ribeiro, p. 9, Intrínseca

Francine Ramos é formada em Letras Português/Inglês, trabalha com Tecnologia Educacional e em 2011 criou o blog Livro&café. O que ela quer é ser professora de literatura, ter uma boa biblioteca particular, viajar e ler Virginia Woolf. Tudo isso e mais, sem esquecer do café.