Precisamos Falar Sobre o Kevin, o filme

Precisamos-falar-sobre-o-KevinO filme Precisamos Falar sobre o Kevin foi lançado no mês passado aqui no Brasil. Ele é baseado no romance de mesmo nome da escritora americana Lionel Shriver que, para mim, é a melhor escritora da atualidade. Eu estava muito curiosa para ver a versão para a telona e tentei não me deixar influenciar pelo velho clichê de que o livro é melhor que o filme. Eu juro que tentei. E até a metade do filme tudo estava caminhando bem. É claro, naturalmente, eu comparei o tempo todo – das cenas que não existiam às cenas modificadas, tudo, tudo. Os atores foram todos bem escolhidos, Tilda Swinton está fantástica no papel de Eva, porém, o que faz o romance de Lionel ser tão surpreendentemente bom eu não consegui ver com clareza no filme. O que vi foram algumas cenas soltas, diálogos fracos e um vácuo gigante que deveria ter sido preenchido com o principal do livro: a densa, dramática e psicológica narrativa da Lionel Shriver que torna toda a história da família Katchadourian profunda e trágica. Agora não me perguntem como isso poderia ser transportado para o filme, pois eu realmente não sei.

O livro conta a história do garoto Kevin, que aos 16 anos, torna-se autor de uma chacina em seu colégio. A partir deste ponto, a vida de Eva, mãe de Kevin, é totalmente transformada, para pior, evidente. E o livro começa quando Eva, esgotada de tudo o que lhe aconteceu, escreve cartas ao seu marido tentando entender o que foi a vida deles quando ela resolveu ser mãe. Há um impasse muito delicado na história, pois Eva nunca gostou de Kevin, seu próprio filho e, ao contrário do que seria natural, Lionel Shriver conseguiu contruir uma personagem mulher, que mostra não amar o próprio filho logo nas primeiras páginas, não causar antipatia nos leitores. Chega a ser constrangedor a gente sentir empatia por uma personagem tão fria. Porém, a salvação de Eva é a sua sinceridade, muito diferente do marido que fingia não ter um filho problemático. Ela assume duramente a postura de carrasco perante a família perfeita vista pelos olhos do seu marido.

E claro, o personagem de Kevin é o mais enigmático, a criança sempre fora terrível, fria, manipuladora, sarcástica, cruel, desafiadora e, acredite, nutria de um certo respeito por Eva, que era a única pessoa que chegou um pouco mais perto da verdadeira identidade do filho, mesmo esse “perto” ser como um mísero centímetro.

Há muitos ingredientes que constróem um bom romance, desde os personagens, o clímax, o “nó” da história, seu desfecho, a narrativa, enfim, é um conjunto muito difícil de ser construído para levar um romance ao status de obra-prima, que é o caso de “Precisamos Falar Sobre o Kevin”. É como um labirinto de dominós, se tirarmos alguma peça, tudo pode cair e isso, infelizmente, aconteceu no filme, numa das últimas semanas: um “presente” que Kevin entrega para Eva, dando todo o clima macabro na história não aparece no filme. Não aparece no filme.

Onde Comprar: 
Americanas
Livraria Cultura
Submarino

Francine Ramos é formada em Letras Português/Inglês, trabalha com Tecnologia Educacional e em 2011 criou o blog Livro&café. O que ela quer é ser professora de literatura, ter uma boa biblioteca particular, viajar e ler Virginia Woolf. Tudo isso e mais, sem esquecer do café.

  • Marcia

    Assisti o filme, mas não gostei.Vou ler o ler o livro.

  • Ivani Priscila Barros

    eu não li o livro
    que presente foi esse fiquei curiosa

    • francineramos

      O livro é maravilhoso, leia, leia!
      Não posso contar do presente, que perde a graça…rsrs

  • Patricia

    Bom, eu não li o livro ainda e ontem vi o filme (nem sabia que era baseado em livro, pensei que fosse baseado em fatos reais), que comentado no Programa do Jô por uma Psiquiatra (ela disse que era uma história real e por isso o procurei). Sinceramente, esperava mais.
    Como não li o livro, posso afirmar que a história foi muito mal contada, faltou desatar muitos nós. O filme sequer é claro sobre como Célia perde o olho.
    Sem dúvida um assunto muito rico para ser tratado de forma tão superficial. Faltou clímax, faltou explicar a revolta da sociedade contra a mãe do Kevin, que também perdeu tudo.

  • Jéssica

    Sinceramente, eu discordo. Assisti o filme, li o livro, e estou até agora admirada com a riquíssima adaptação cinematográfica, pela primeira vez na vida senti que a “alma” de um livro conseguiu ser bem captada e traduzida. Não duvido da complexidade de se transformar um livro em filme, até porque nunca me senti satisfeita com nenhuma adaptação. De fato, o “presente” foi cortado, mas não vejo como isso tenha feito o clima macabro ser deixado de fora. Ele estava lá desde o início, percebe a trilha? Bom, talvez uma sutil diferença tenha ajudado em nossa opinião divergente: você leu antes de assistir, eu assisti antes de ler.
    É também um dos meus livros favoritos, apesar do caráter muito previsível do Kevin (falando um pouco como estudante de Psicologia), a riqueza da personalidade da Eva é impressionante e compensa qualquer parcialidade.

    PS: adorei o blog!

  • http://inspiringfeelings.blogspot.com/ Day

    Eu estou com muita vontade de assistir também, mas agora só qdo sair em vídeo, aqui onde moro já saiu do cinema.
    Eu adorei o livro, apesar de tratar sobre um tema que causa arrepio, a narratica fluiu rápido, eu não consegui parar. O livro é muito forte, terminei a leitura com um gostinho amargo na boca.

    Mas vc tem toda razão, em nenhum momento senti algum tipo de aversão pela Eva, em compensação, algumas horas tive vontade de esganar o Franklin… Como é possível não perceber ( ou fingir que nao percebe) que o filho tem problema?

  • pedro j

    A cada filme que assisto, desisto um pouco de compara-lo com o livro que lhe deu origem.
    Primeiro, por nao ser possivel condensar em algumas poucas horas todo o conteudo de um livro.
    Segundo, porque o assistir a um filme tende a ser uma “atividade” muito mais passiva do que a leitura. Experiencias bem diferentes.
    No mais, faco referencia a todas as comparacoes e argumentos feitos por Rubem Fonseca no “Vastas emocoes e pensamentos imperfeitos”.
    Ainda assim, eh um bom passatempo ler uma boa narrativa imaginando como seria o filme.

    • http://www.livroecafe.com Francine Ramos

      Eu penso o quanto é difícil para o roteirista conseguir passar tudo o que contém num livro e, por mais que ele se esforce para isso, o que vai estar no roteiro é a visão dele da história e, claro, cada um vê a história por um ângulo diferente. São raros os filmes que conseguem aproximar cinema e livro de uma forma completa perante os olhos dos cinéfilos. Eu acredito que alguns filmes conseguiram isso: Harry Potter, O Senhor dos Anéis, Orlando e As Horas, por exemplo.

  • http://www.bibliotecaparticular.com/ Samara

    Eu vi o filme e realmente achei que deixou algumas (várias) lacunas, mas me deixou com vontade de ler o livro, na verdade, eu já queria há tempos ler algo da Lionel Shriver e seu post intensificou essa vontade. Bom saber que o livro pode oferecer mais, pois esse assunto além de delicado, é bem interessante.
    Ah, e obrigada pela visita e comentário no blog, volte sempre. Virginia Woolf é ótima, vou dar uma lida nos posts que tem sobre ela por aqui.

    • http://www.livroecafe.com Francine Ramos

      O livro vale muito à pena, além de perturbar, ele traz a oportunidade de aprender a analisar uma história por outros ângulos, é um exercício de tolerância, de saber raciocinar perante as crueldades humanas.