Mapas do Acaso (Humberto Gessinger) e boas recordações

Um dia me disseram que as nuvens não eram de algodão” é uma das frases que acompanharam a minha adolescência e está numa música da banda Engenheiros do Hawaii. Ah, aquela época em que as bandas tinham letras que também eram poesias! Renato Russo, Rita Lee, Cazuza e outros tantos nome que, além de serem rebeldes, além de mostrarem a essência viva do rock me aproximaram da poesia! “Bons tempos que não voltam mais”, é a frase clichê (e verdadeira) que uso para derramar aqui toda a minha lamentação pelo rock nacional de hoje, cadê as novas bandas (com boas letras)? 

Anos noventa, eu tinha uma gaita e queria ser a Alanis Morissete, meus amigos eram meus vizinhos, todos pequenos rebeldes tentando entender o que poderíamos fazer com o mundo em nossas mãos, adolescentes e a ingenuidade em acreditar nisso, acho lindo.

Sentávamos na calçada, eu de gaita, um amigo de violão, outro com a pasta contendo as letras das músicas que cantaríamos naquela noite. Outros amigos apareciam até que uma roda era formada e a lua iluminava, o poste de luz amarela também e, vez ou outra, minha mãe aparecia no portão para dizer que era meia noite, que deveríamos cantar mais baixo. O ápice de nossa rebeldia, incomodar os vizinhos, pensávamos, e o violão começa com os acordes de “suspenderam os jardins da babilônia…” Época boa.

Hoje em dia, vejo que o ídolo das meninas é o Fiuk, na minha época era o Humberto Gessinger! Todas as meninas queriam se perder no meio da cabeleira loira dele, principalmente quando ele tocava “seus lábios são labirintos” Época boa.

Pronto, agora posso falar de Mapas do Acaso, o segundo livro de Humberto Gessinger que na capa está mais parecido com o Ozzy Osbourne (ops).

O livro é composto de crônicas, pequenos textos já escritos em jornais, revistas e papel de pão e as letras de suas canções. Gessinger tem uma fluidez rápida, numa crônica vários assuntos ficam ligados por uma linha tênue e aí está o perigo, pois acredito que quem não conhece Humberto pelo seu trabalho musical, não irá gostar de seus textos. Eu, grande admiradora das letras de suas músicas, por conter, principalmente, figuras de linguagem, gostei do jeito “solto” utilizado no livro, não sei se é proposital ou simplicidade de quem está acostumado a escrever letras de músicas.

O que fica é o pensamento livre do Gessinger, como se fosse possível conhecer um pouco mais do cara que fez de minha adolescência poesia. “E tudo ficou tão claro. Um intervalo na escuridão”. Ele já leu Jack Kerouac, Guimarães Rosa, Mario Quintana, Franz Kafka, Hermann Hesse, Aldous Huxley, Agatha Christie, Jorge Luis Borges e muitos outros, claro. As crônicas iniciam por “Nota mental para uma próxima vida“, ele está anotando bem.

“Vivo como se não houvesse amanhã”, “Só me arrependo do que não fiz”. São frases muito comuns nos nossos dias. Destas que, de tanto ouvir, aceitamos sem pensar. Como música de elevador e papel de parede. Essa salada de autoajuda-histérica-consumista é o prato do dia. Todos os dias. Viver como se não houvesse amanhã, às vezes, pode ser traduzido como: trocar de celular sem necessidade e pagar com cartão de crédito. Sem crédito. (p. 11. Belas Letras, 2011)

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Americanas
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Francine Ramos é formada em Letras Português/Inglês, trabalha com Tecnologia Educacional e em 2011 criou o blog Livro&café. O que ela quer é ser professora de literatura, ter uma boa biblioteca particular, viajar e ler Virginia Woolf. Tudo isso e mais, sem esquecer do café.

  • Emerson

    adorei o viver hoje como se não hovesse amanha kkkr