A vida do escritor e seu romance, por Philip Roth

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O que as pessoas invejam nos romancistas não são as coisas que os romancistas julgam invejáveis, e sim as personalidades atuantes cuja vontade o autor faz, a irresponsabilidade a lhe grudar e despegar da pele, o regozijo não no ‘eu’ e sim no ‘eu’ que escapa, mesmo que implique – principalmente quando implica – acumular aflições imaginárias sobre si mesmo. O que é invejado é o dom para a autotransformação teatral, a forma como eles conseguem afrouxar e tornar ambígua sua conexão com a vida real pela imposição de talento. O exibicionismo do artista maior está relacionado a sua imaginação; ficção para ele, é ao mesmo tempo uma hipótese jocosa e uma suposição séria, uma maneira imaginativa de averiguação – tudo aquilo que o exibicionismo não é. Mas, se for, será o exibicionismo interno, o exibicionismo escondido. Não é verdade que, contrário ao que acha a maioria, é a distância entre a vida do escritor e seu romance o aspecto mais intrigante de sua imaginação?

Philip Roth, O avesso da vida, tradução de Beth Vieira, p. 242. Cia das Letras

Por:

Francine Ramos é formada em Letras Português/Inglês, trabalha com Tecnologia Educacional e em 2011 criou o Livro&café. O que ela quer é ser professora de literatura, ter uma boa biblioteca particular, viajar e ler Virginia Woolf. Tudo isso e mais, sem esquecer do café.

  • http://www.meninanosotao.wordpress.com Lunna

    E a segunda vez que venho aqui, mas e a primeira que paro para dize algo, primeiro porque gosto de descobrir o blogue e ver s este merece o meu interesse, como um livro em que leio as primeiras linhas, observo a capa, reconheço o autor e só então decido entre ler ou não…
    Gostei da citação acima, sempre me interessa olhar para dentro dessa casa com portas entre abertas para a qual nem sempre somos convidados…
    Bacio