A vida do escritor e seu romance, por Philip Roth
O que as pessoas invejam nos romancistas não são as coisas que os romancistas julgam invejáveis, e sim as personalidades atuantes cuja vontade o autor faz, a irresponsabilidade a lhe grudar e despegar da pele, o regozijo não no ‘eu’ e sim no ‘eu’ que escapa, mesmo que implique – principalmente quando implica – acumular aflições imaginárias sobre si mesmo. O que é invejado é o dom para a autotransformação teatral, a forma como eles conseguem afrouxar e tornar ambígua sua conexão com a vida real pela imposição de talento. O exibicionismo do artista maior está relacionado a sua imaginação; ficção para ele, é ao mesmo tempo uma hipótese jocosa e uma suposição séria, uma maneira imaginativa de averiguação – tudo aquilo que o exibicionismo não é. Mas, se for, será o exibicionismo interno, o exibicionismo escondido. Não é verdade que, contrário ao que acha a maioria, é a distância entre a vida do escritor e seu romance o aspecto mais intrigante de sua imaginação?
Philip Roth, O avesso da vida, tradução de Beth Vieira, p. 242. Cia das Letras