Nascidos sem asas, disse José Saramago

Quando o tempo levantou, passada uma semana, partiram Baltasar Sete-Sóis e Blimunda Sele-Luas para Lisboa, na vida tem cada um sua fábrica, estes ficam aqui a levantar paredes, nós vamos a tecer vimes, arames e ferros, e também a recolher vontades, para que com tudo junto nos levantemos, que os homens são anjos nascidos sem asas, é o que há de mais bonito, nascer sem asas e fazê-las crescer, isso mesmo fizemos com o cérebro, se a ele fizemos, a elas faremos, adeus minha mãe, adeus meu pai.

José Saramago. Memorial do Convento. Bertrand, p. 137