Manhã Transfigurada (Luiz Antonio de Assis Brasil)

manha-transfiguradaPense num ingrediente simples para uma receita. Apesar de simples, ele transforma moléculas e altera químicas; se usado na dose certa, invalida pequenos erros, enfatizando aroma e sabor ao prato já pronto. O ingrediente é um triângulo amoroso: uma mulher recém-casada, tão inconstante e volátil quanto a vida; um escrivão da igreja, hormonal como um adolescente por baixo da velha casaca negra; e um padre, tão humano quanto os outros, de alma observadora e coração preso. O nome do prato: “Manhã Transfigurada”.


Publicado originalmente em 1982 em formato médio pela L&PM Editores, o quarto romance de Luiz Antonio de Assis Brasil, “Manhã Transfigurada”, retorna ao catálogo da editora na Coleção L&PM Pocket. Através de 123 páginas, o triângulo se forma rapidamente, sentimentos são colocados à prova e qualquer certeza é trágica devido à improbabilidade de ações e desejos.

Ambientada no Rio Grande do Sul (terra do escritor) do século 18, esta manhã narrada, transformada, desfigurada e emocionalmente caótica, é resultado dos dias de indecisão, angústia e paixão dos três personagens principais, quase únicos, numa cidade chuvosa, pequena, silenciosa até na dor. Camila, o pináculo do triângulo, é presa numa casa pelo poder eclesiástico quando o marido descobre que ela não é virgem. O pedido de anulação do casamento e documentos referentes ao caso são levados à casa de Camila por Bernardo, escrivão da igreja. Jovem, deslumbrado, cansado do próprio ofício e da rigidez que o cerca, ele se entrega à carne exposta que lhe é oferecida e assim começa o primeiro romance. Na outra ponta está o padre Ramiro, homem mais velho, experiente, conhecedor dos pecados e dos próprios limites. Percebendo o romance entre seu escrivão e a mulher malvista, logo surge ciúme e desejo de poder sobre a situação.

Assis Brasil lidou com cada um dos 11 capítulos de forma estruturada e planejada. Vários trechos são repetidos por ângulos diferentes, contados em flashback, sobretudo pelos olhos de Bernardo e de Ramiro, entregues à paixão e suas consequências por “um sorriso que tudo prometia, tudo oferecia”. Cada personagem se revela à sua maneira, expõe o que pensa, sente, sofre e dá mais atenção ao coração quando a razão parece bloquear uma felicidade inabdicável.

Quando a história fica mais esclarecida e menos misteriosa, encontramos uma Camila indecisa com suas próprias paixões, mas segura, repentinamente, de seu amor por Ramiro, por quem nutre um interesse ainda maior do que nutria pelo escrivão.

“Bernardo dera-lhe o gosto de sentir-se mulher e senhora; Ramiro fazia vibrar novas cordas ainda não tangidas dentro de si, adorava ser assim revolvida nas argúcias e refinamentos.”

Ramiro sente-se terrível porque seu inesperado desejo começa a persegui-lo. A tensão criada entre sexualidade e espiritualidade é quase perturbadora de tão lindamente descrita. Toda a dor de Ramiro é escrita de forma pungente, poética, que dilacera a inocência que há num amor nunca querido — ou querido inconscientemente, afogado por anos no sangue de Cristo.

Um dos capítulos mais belos, se não o mais belo e bem-escrito de todos, vertiginosamente visual como um quadro surrealista, é o capítulo 9, em que a verdade se revela a Ramiro enquanto reza contra a própria concupiscência. Mesmo conferindo palavras que o salvem, sua mente é invadida pelo corpo de Camila e toda labareda que nasce da mulher. A mistura entre latim, fé, sedução, pavor, imagem e vontade enlaçam o leitor de maneira a fazê-lo acreditar que está ajoelhado ao lado de Ramiro enquanto ele é atormentado por seu monstro íntimo: “Ajoelhou-se no comungatório, junto ao altar-mor, o pensamento em Camila perseguindo-o como uma sombra. Buscou palavras devocionais, libera corda nostra de malarum tentationibus cogitationum, livra nossos corações da tentação dos maus pensamentos, Domine. No entanto, Camila não o abandonava, emergia entre as orações, persistente como chaga aberta, aos poucos a imaginação despindo-a, a começar pelos ombros lisos e sem marca, sem tisnadura ou jaça […]. Os dentes claros, pérolas, o hálito morno que chegava até ele.”

O inusitado, o improvável e a beleza trágica fazem deste um dos melhores e mais sensíveis romances da literatura brasileira.

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