A Casa dos Espíritos (Isabel Allende)

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a casa dos espíritos
Isabel Allende possui o prenome de sua avó, que inspirou uma de suas personagens favoritas, Clara Del Valle, de sua obra-prima, A Casa dos Espíritos (de edição brasileira pela Editora Bertrand Brasil, 448 páginas). Tanto sua mãe quanto ela mesma escreveram, durante toda a vida, o que chamam de “livros de escrever a vida”, diários que narram com despudorada realidade seu cotidiano.

Foi por meio dessas memórias e usando-se delas que a escritora construiu a narrativa do livro A Casa dos Espíritos, estruturada em torno de quatro gerações de mulheres. Bisavó, avó, filha e neta compartilham nomes mutuamente semânticos e uma magia feminina característica, de linha matrilinear: são personagens fortes, delineadas, decisivas. Apesar de contextualmente viverem em uma sociedade ainda patriarcal, é das mulheres a base segura nas famílias, é nelas que se depositam a marca de personalidade e o misticismo característico que se alonga nas gerações e no decorrer da história narrada.

Toda a produção literária de Allende possui – mesmo que de forma completamente livre de estereótipos – caráter autobiográfico. Fica evidente em sua narrativa, ora fantástica (uma obviedade, sendo ela um expoente do realismo fantástico), ora cotidiana; ora em tom de confissão, ora em forma de história oral, que a autora tem a intenção de contar o que viveu, mesmo que para isso utilize certos limites – o que a permite não ter limites “convencionais”. Personagens de cabelos verdes e de poderes transitam numa sociedade onde personagens reais – Pablo Neruda e Salvador Allende – são transformados em heterônimos alegóricos: o Poeta e o Presidente, respectivamente.

Essa transição entre mundos – o real e o fictício – permitiu que se criasse uma relação particularmente interessante, que talvez tenha passado despercebida da escritora no processo de escrita do romance – segundo ela mesma, percorreu esse processo totalmente alheia ao mundo, como em transe. Essa relação criada entre a situação da família central da trama – os Del Valle-Trueba – e o cenário político do Chile é a de micro história e macro história, quando uma amostra pequena da história viva – no caso, a família – retrata o cotidiano de uma amostra maior – a situação do país.

Interessante é observar, também, a ausência de protagonistas na obra de Allende. Há apenas núcleos de personagens – no caso, os grupos familiares -, em que as mulheres são o norte do comando familiar, enquanto os homens fazem frente ao cerne político da sociedade.

O conjunto de objetos passíveis de observação na obra de Isabel Allende mostra a qualidade estilística da autora. Nela ressaltam atributos relevantes do artista, principalmente a forma espontânea e despretensiosa de seu livro, que incita a reflexão, não apresenta ideias prontas ou definições de mundo a serem seguidas, ela retrata a sua visão de mundo e convida o leitor a colocar-se em um ambiente, da mesma forma que uma poesia necessita do leitor para adquirir sentido de existência e ao mesmo tempo impõe-se ao leitor como algo vivo e maleável tornando atemporal e sem lugar fixo, caracterizando os atributos mais bonitos da arte.

A obra não chega à classificação de um romance histórico, mas a transcende: consegue harmonizar com impressionante verossimilhança a crua realidade real e a fantástica realidade na qual vivem alguns dos personagens. Elementos pequenos, mas importantes, dão à saga familiar um tom bizarro e especial: os animais fantásticos que a bela Rosa borda em sua interminável toalha aparecem nas esculturas de Blanca e nos desenhos de Alba; os personagens masculinos que ladeiam a linhagem das mulheres de nomes brancos são essencialmente políticos, porém completamente diferentes em sua individualidade, os poemas e a morte de Pablo Neruda, os livros lendários do baú do tio Marcos, o cão Barrabás. Todos esses elementos, juntos, dão ao escrito um tom especialmente mágico, completamente singular e – ainda – extremamente familiar.

O tom derradeiro do livro, uma súplica de memória, faz com que o leitor termine a história com a sensação de que ele mesmo viveu – mesmo que em uma realidade efêmera – as páginas do livro. A autora faz com que não nos sintamos leitores, mas personagens da história, espreitando a assustadora beleza de Rosa, a infindável transição de menina a mulher de Clara, a eterna construção masculina de Esteban, as corajosas Blanca e Alba. Somos consolados com a ausência de um fim: a estrutura cíclica de Allende nos surpreende: ela termina a narrativa como a começa. Não finaliza, não rompe. A história segue, viva.

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Por:

Letícia Mistura, graduanda em História. Entusiasta do monogâmico casal café e livro. Fala tão rápido quanto pode – nem sempre é culpa do café, quase sempre é culpa do livro. Nunca conseguiu manter diários, blogs ou cadernos de anotações, mas as palavras não desgrudam dela. Não sabe a cor dos próprios olhos e gosta de escrever em terceira pessoa.

  • Mariana Fonseca

    Amo, amo, amo Isabel Allende!
    Mas ainda não li A Casa dos Espíritos! (shame on me) Preciso reparar logo esse erro.
    Se você ainda não tiver lido Paula, leia. É fantástico.

    • Letícia Mistura

      Ora, então leia, é incomparável! Já li Paula, sim, para mim é um ode inspirativo. Obrigada pelo comentário!