Carta ao pai (Franz Kafka), uma carta que nunca foi enviada

Franz Kafka é um escritor essencial para a história da literatura, pois a sua pequena produção literária (3 romances, vários contos e 1 novela) é de uma qualidade tão assustadora que, de um jeito simples, revelam todas as agonias do ser humano.

Carta ao pai, sem dúvida o seu texto mais transparente, é mesmo uma carta que Kafka escreveu para o pai, Hermann Kafka (1852 – 1931), mas que nunca foi enviada e o motivo está nas primeiras linhas da própria carta:

“Querido pai,
Tu me perguntaste recentemente por que afirmo ter medo de ti. Eu não soube, como de costume, o que te responder, em parte justamente pelo medo que tenho de ti, em parte porque existem tantos detalhes na justificativa desse medo, que eu não poderia reuni-los no ato de falar de modo mais ou menos coerente. (…)” (p. 415)

Medo é o que mais sentia Kafka, não exclusivamente pelo seu pai, como fica evidente na carta, mas medo do estranho, do sonho, do pesadelo, de não se encaixar em si mesmo, de ser julgado, oprimido, contestado e não conseguir se livrar de todas essas agonias. E na carta ao pai, o escritor mostra a viva e dolorosa relação familiar, que deixa nas entrelinhas a gigantesca influência do pai em toda a sua obra.

A carta segue uma linha cronológica que mostrar desde a infância de Kafka à vida adulta. E sempre com a presença autoritária do pai,  um sujeito grande e forte, com o próprio filho o descreve, com a voz forte, imponente e tão diferente do próprio filho.

“É que eu já estava esmagado pela simples materialidade do teu corpo. Recordo-me, por exemplo, de que muitas vezes nos despíamos juntos numa cabine. Eu magro, fraco, franzino, tu forte, grande, possante. Já na cabine eu me sentia miserável e na realidade não apenas diante de ti, mas diante do mundo inteiro, pois para mim tu eras a medida de todas as coisas.” (p. 421)

Sendo o pai de Kafka a “medida de todas as coisas”, é fácil imaginar o tamanho do sofrimento do garoto que, através do pai, via também o mundo todo, o que o transformou num homem medroso, tímido, retraído, como ele mesmo se descrevia.

Além desse medo “corporal” de Kafka, as atitudes agressivas do pai também o incomodavam, apesar do pai nunca ter utilizado da força física em seus filhos, a violência psicológica sofrida por Kafka foi imensa. Suas irmãs, diferente dele, conseguiram construir um tipo de escudo para não serem tão atingidas pelo próprio pai, mas Kafka não conseguiu, o que o tornou mais desestabilizado emocionalmente, pois se as suas irmãs e sua mãe conseguiam algum tipo de conviência com o pai, por que ele não?

Carta ao pai registra momentos muito importantes na vida de Kafka, que ajudam o leitor a compreender um pouco mais a sua obra, tão complexa, intensa e exageradamente boa. A maior parte do conteúdo é a triste relação de Kafka com o seu pai, com pequenos momentos felizes, pois Kafka reconhece quando o pai, exausto de tanto trabalhar, chega cansado em casa e apenas dorme, por exemplo, mas ao mesmo tempo fica muito envergonhado com o péssimo tratamento que o pai dá aos seus funcionário, que ele chama de inimigos.

E para Kafka, reconhecer uma pequena parcela de bondade e amor em seu pai “não lograram outra coisa a não se aumentar a consciência de culpa“. Ou seja, Kafka se sentia culpado por tudo, pelo mundo todo, sendo isto algo que fica muito evidende em sua obra. Em “O Processo”, por exemplo, o personagem Joseph K. é condenado por algo que ele não imagina o que pode ser; em “A Metamorfose”, Gregor Sansa, acorda transformado num inseto monstruoso, sem motivos, mas que leva o personagem a um total desespero.

Em sua vida adulta, a maior influênia, além dos livros, que Kafka recebeu de seu pai foi sobre os relacioamentos sociais. Kafka foi noivo por duas vezes, mas não conseguia dar o próximo passo, de realizar o casamento. Na carta, ele revela que ter uma família seria algo muito difícil para ele suportar, uma vez que ele se tornaria como o seu pai e, consequentemente, se livraria dele. É doloroso, pois em certos momento o leitor compreende que Kafka se sentia escravo do próprio pai.

“O casamento é, por certo, a garantia da mais nítida autolibertação e independência. Eu teria uma família, o máximo que em minha opinião pode ser alcançado, ou seja, o máximo que também tu alcançaste; eu estaria à tua altura (…)” (p. 457)

O pai, em certo momento, oferece ajuda ao filho, diz que o acompanharia durante todo o processo de casamento, mas Kafka não consegue aceitar a ajuda, o que torna a situação um ciclo complexo de medo – ameaças – solidão – mágoas – e tentativas frustradas de reconciliação, ou, on mínimo, um apaziguamento.

Há muito para falar sobre Carta ao Pai, em algum momento o leitor irá se identificar com alguma relação familiar que já viveu. O “estilo” do pai de Kafka é mais comum do que podemos imaginar, ainda mais no início do século XX, onde o sistema patriarcal era tão mais forte. Hoje, aos pais, é permitido carinho e amor, mas, nos conta a história que nem sempre foi assim.

Se por um lado nós temos Kafka como um sujeito tímido e fraco, o que ele conseguiu fazer com a sua arte literária, possui exatamente o contrário do que o seu corpo franzino e o seu medo indicaram. Kafka é um gigante da literatura, e sua linguagem, seu texto, suas histórias, possui uma força tão rara de se encontrar nos livros. Com todas as influências negativas que ele recebeu, não somente do pai, mas tudo, Kafka é aquele escritor que do limão, fez uma limonada, sem mel, açúcar ou adoçante, porque o sabor forte, natural, verdadeiro, precisa ser provado.

“Minha atividade de escritor tratava de ti, nela eu apenas me queixava daquilo que não podia me queixar junto ao teu peito. Era uma despedida de ti, intencionalmente prolongada, com a peculiaridade de que ela, apesar de imposta por ti, corria na direção que eu determinava. Mas como tudo isso era pouco!” (p. 447)

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Francine Ramos

Criou o Livro&Café em 2011, é professora de Língua Portuguesa, adora ler e trabalhar com mediação de leitura. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

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“Livros, o precioso sangue dos espíritos imortais” Virginia Woolf