Diário de Leitura: Os Miseráveis (Victor Hugo) Semana 4

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COSETTE

Livro I – Waterloo

O que o senhor vê ali, mais para cima, na porta, perto daquele prego, é o buraco de uma bala de canhão que não conseguiu atravessar a madeira.
— Como se chama este lugar? – perguntou o estranho.
— Hougomont – respondeu a camponesa.
O viandante levantou-se, deu alguns passos e pôs-se a olhar por cima das sebes. Percebeu no horizonte, através das árvores, uma espécie de montículo, sobre o qual havia qualquer coisa que, de longe, se assemelhava a um leão.
Estava no campo de batalha de Waterloo.

Da Wikipedia: A Batalha de Waterloo foi um confronto militar ocorrido a 18 de Junho de 1815 perto de Waterloo, na atual Bélgica (então parte integrante do Reino Unido dos Países Baixos). Um exército do Primeiro Império Francês, sob o comando do Imperador Napoleão (72 000 homens), foi derrotado pelos exércitos da Sétima Coligação que incluíam uma força britânica liderada pelo Duque de Wellington, e uma força prussiana comandada por Gebhard Leberecht von Blücher (118 000 homens). Este confronto marcou o fim dos Cem Dias e foi a última batalha de Napoleão; a sua derrota terminou com o seu governo como Imperador.


 

A informação que mais apareceu nesta semana de #LendoOsMiseráveis foi sobre a lentidão na parte de Waterloo. Assim, fiquei com um certo receio de enfrentar este momento da leitura, mas, fazendo uma metáfora a própria batalha de Waterloo, decidi vencer a batalha!

Acredito que por sairmos da parte de Fantine totalmente transbordantes em sentimentos, a partir das ações maravilhosas de Jean Valjean e o triste fim de Fantine, quando chegamos na batalha, somos como o caminhante que por lá passeia, vendo nas paredes as marcas da guerra, tentando entender o que foi aquilo tudo e assim, como se Victor Hugo quisesse dizer para o leitor: calma, vamos respirar fundo, vamos descansar a mente para uma nova parte da história. Vou te apresentar o local onde ocorreu a batalha de Waterloo, não desista, acalme-se que ainda muita coisa virá.

Então, contrariando o que dizem ser a batalha de Waterloo, o que mais gostei nesta parte é sobre exatamente o que tanto incomoda alguns leitores: grandes descrições detalhadas de casas, da vida de camponeses, a natureza, os soldados, a batalha, quem morreu, quem sobreviveu, etc… O que lembra também uma frase do livro, lá da página 189 (da minha edição da CosacNaify), em que o narrador fala sobre a importância da história:

“Não existem pequenos fatos na história, como não existem pequenas folhas na vegetação – são úteis. As feições dos anos é que compõem a fisionomia dos séculos” (p.189)

Ou seja, Waterloo, aquela batalha, as pessoas que morreram e outras que viveram para contar a própria história, são de extrema importância para entendermos Os Miseráveis. Fantine, Jean Valjean, Cosette, Javert… todos eles enfrentaram as suas batalhas, assim como os soldados de Waterloo.

E também há uma certa ironia presente na obra:

“Bauduin morto, Foy ferido, o incêndio, o massacre, a carnagem, um regato de sangue inglês, francês e alemão furiosamente misturados, um poço atulhado de cadáveres, os regimentos de Nassau e de Brunswick destruídos, Duplat morto, Blackmann morto, os guardas ingleses mutilados, vinte batalhões franceses dos quarenta componentes da divisão de Reille, completamente dizimados, três mil homens, somente nas ruínas de Hougmont, feridos, despedaçados, degolados, fuzilados, queimados; e tudo isso para que uma camponesa hoje diga a um viajante: – Meu senhor, dê-me três francos e, se quiser, eu lhe explico como é que foi a coisa em Waterloo!”

Mais para frente, o narrador explica a importância desta batalha, que deu início ao declínio de Napoleão Bonaparte:

“Waterloo não era uma batalha; era a completa mudança da face do universo.” (p. 470)


“Não se tratava mais de uma batalha; era uma sombra, uma fúria, um vertiginoso rapto de almas e coragens, uma tempestade de espadas-raios.” (p. 473)


“Waterloo é o gonzo sobre o qual gira o século XIX. O desaparecimento do grande homem era necessário para o desenvolvimento do grande século. Alguém, a quem não se replica jamais, se encarregou da tarefa. O pânico dos heróis é explicável. A batalha de Waterloo há muito mais que uma nuvem; há um meteoro. Deus passou por ali.”


“O amanhã constrói irresistivelmente a sua obra, começando-a hoje mesmo.”


“O herói do dia é o vampiro da noite.”


“A obscuridade era serena. Nenhuma nuvem no céu. Que importa que a terra esteja vermelha? A lua continua sempre branca.”

“Se existe algo terrível, se existe alguma realidade que ultrapasse os sonhos, é esta: viver, ver o sol, estar em plena posse da força viril, ter saúde e alegria, rir com audácia, correr em direção a uma glória que está ali mesmo, resplandecente, sentir no peito um pulmão que respira, um coração que palpita, uma vontade que raciocina, falar, pensar, esperar, amar, ter mãe, ter mulher ter filhos, ter luz, e, de repente, sem tempo para dar um grito, em menos de um minuto, mergulhar num abismo, cair, rolar, esmagar, ser esmagado, ver espigas de trigo, flores, folhas, ramos sem poder agarrar-se a nada, possuir um sabre inútil, sentir corpos triturados e o peso dos cavalos, debater-se em vão, com ossos esmigalhados por um coice, sentir um sapato que faz saltar os olhos, morder com raiva os ferros das montarias, asfixiar-se, berrar, torcer-se, estar lá em baixo, e dizer: – Agora mesmo eu vivia!”

Ao final da batalha, um homem, “um vagabundo noturno”, caminha entre os corpos para roubar algumas coisas. Encontra um homem ainda vivo.

O homem vagabundo é Thernadier, o homem que, com sua mulher, chantageou Fantine. Ele era do exército francês.

Ele ajuda o sargento Pontmercy, que fica extremamente grato.

Só penso numa coisa: vai dar merda.

Fim da (temida) batalha de Waterloo.

Livro II

O Navio de Guerra Orion

O nosso amado Jean Valjean está no navio, realizando trabalho forçado, por conta de, novamente, ter sido preso. Porém ele salva um marinheiro, ganhando aplausos da multidão, que grita pela sua liberdade.

É noticiado que Jean Valjean se afogou no mar, morreu, em 17 de novembro de 1823. Mas é mentira.

Livro III

Cumprimento da promessa feita à morta

Que promessa? Salvar Cosette. Que morta? Fantine.

Volta a angustia, a tristeza em ler sobre as condições que a criança Cosette vivia na estalagem dos Thernadier.

Ao ler mais um dia de tristezas na vida de Cosette, a escravidão a qual se encontrava com os terríveis Thernardier dilaceram o coração de qualquer leitor. Se a sua mãe adormeceu na eternidade, o que chega a confortar após tanto sofrimento, neste momento, imaginamos que, se ela permanece viva em algum outro espaço, sofre ao ver o sofrimento da filha e assim, todo o desespero de Fantine, mesmo não estando mais presente na obra, volta com cada medo que sente a criança Cosette, a cotovia que não canta mais…

“Enquanto corria, teve vontade de chorar.
O murmúrio noturno da floresta a envolvia. Ela não pensava em mais nada, não enxergava mais nada. A noite imensa desafiava aquela pobre menina. De um lado, toda a sombra do mundo; do outro, um simples átomo.”

Mas, como ainda há esperanças no mundo, como “para todos os encontros da vida há instintos ocultos”, quando Cosette tenta, no escuro, carregar o balde cheio de água aparece, novamente como um herói, Jean Valjean.

E temos, enfim, uma parte da história que acaba feliz. Apesar das tentativas inúteis de Thernardier de recuperar a criança que mantinha como escrava, Jean Valjean sai triunfante e, o mais bonito, temos um pouco de paz nos olhos de Cosette.

Um palpite: Thernardier vai buscar ajuda com o homem que ele ajudou na batalha de Waterloo, para recuperar Cosette.

600 páginas lidas.

Livro maravilhoso!!!

Assista o vídeo sobre as semanas 3 e 4:

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Francine Ramos

Criou o Livro&Café em 2011, é professora de Língua Portuguesa, adora ler e trabalhar com mediação de leitura. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

6 Comments
  1. Fran, adoro seu diário de leitura, mas coloca as paginas de onde você retirou os trechos destacados. Fica melhor pra gente se achar na leitura 🙂
    Beijos!

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