A marca na parede (Virginia Woolf): sobre os caminhos dos nossos pensamentos

É comum a todos os pensadores, pessoas comuns, que, alguma coisa aparentemente simples ou sem significado, inicie um processo profundo de pensamentos e ideias novas e velhas. É sobre isso o conto A marca na parede (Virginia Woolf), que foi publicado em 1917, e que já sugere muitas coisas relacionadas às características mais fortes da escritora: como o uso da técnica do fluxo de consciência, a forte relação com elementos da natureza e a crítica ao sistema patriarcal.

O conto começa de um jeito muito simples. A primeira frase é:

“Foi talvez em meados de janeiro deste ano que olhei pela primeira vez para cima e vi a marca na parede.”* (p. 105)

UMA_CASA_ASSOMBRADA
primeira edição brasileira, de 1984, editora Nova Fronteira

O ato de olhar para cima, pode significar várias coisas, mas há duas fundamentais: a.) ao se olhar para cima, é por acreditar em algo divino, o céu, deus, a natureza; b.) ao se olhar para cima, é porque nos encontramos em uma situação inferior. Portanto, no conto, Virginia Woolf caminha para essas duas possibilidades e com um ingrediente a mais, pois ela, com serenidade, não utiliza critérios comuns para avaliar o que está em cima ou o que está embaixo.

O conto então, a partir de uma marca na parede, é sobre os caminhos dos nossos pensamentos e as influencias internas e externas que ocorrem sem o nosso controle, como se fôssemos um peixe se adaptando constantemente à maré e que também podemos relacionar ao vento. Olhar para cima, olhar para baixo. O céu, o mar!

 

Gosto de pensar no peixe que se equilibra na correnteza como bandeirola drapejando ao vento.” (p. 59) **

 

E também podemos relacionar a vida à uma árvore, que possui uma força visual talvez muito mais forte que um peixe. E olhamos para ela, de baixo, mas também podemos nos impressionar com as suas raízes:

 

Gosto de pensar na árvore em si mesma: primeiro, a sensação íntima e seca de ser madeira; depois, o tormento da tempestade; em seguida o lento e delicioso escorrer da seiva…” (p. 59)**

O divino como recurso metalinguístico não faz parte da obra Virginia Woolf, e também no sentido de ser algo concreto em sua vida, mas a sua invocação ocorre em alguns momentos, como um pedido secreto para o ser humano que, preso em suas próprias raízes, ou como se fosse se afogar, precisa de uma salvação ou, ao mesmo, aceitar a própria ignorância:

Oh, valha-me Deus! O mistério da vida; a imprecisão do pensamento! A ignorância da humanidade!* (p. 59)

Aqui, cabe então, a crítica feminista sobre a sociedade e a liberdade de todos, homens e mulheres, a partir da reflexão sobre as coisas reais da vida – que conectam os pensamentos, que colaboram para uma reflexão sobre a vida; a própria vida e a dos outros, como um jantar, a família, a mesa e uma tolha:

O que agora toma o lugar dessas coisas, pergunto-me, importantes e sérias? Talvez os homens, caso você seja mulher; o ponto de vista masculino que governa nossas vidas, que fixa o padrão, que estabelece a Ordem de Precedência…”* (p. 109)

 

Importantíssimo no conto também, a relação com o espelho, como um objeto que traz, automaticamente, mesmo que a pessoa não queria, uma reflexão. Está lá, mesmo que grande ou pequeno, mas saber de sua existência e da possiblidade da reflexão como algo interno também, é possível relacionar-se a si mesmo, não apenas olhando para os espelhos, mas, por exemplo, na rua, dentro do ônibus, uma marca na parede… e assim construir uma ideia sobre a própria literatura, o que ela fez como um presságio de sua própria obra e também do Modernismo.

Quando nos encontramos face a face, nos ônibus e trens subterrâneos, é no espelho que nós estamos olhando; o que explica a vaguidão, o brilho de vidro, em nossos olhos. E os romancistas do futuro dar-se-ão cada vez mais conta da importância dessas reflexões, pois claro está que não há só um, mas sim um número quase infinito de reflexões; são essas profundidades que eles irão explorar, esses os fantasmas que perseguirão, deixando a descrição da realidade cada vez mais fora de suas histórias…”* (p. 108)

 

contos-completos-cosac
Contos completos, livro lançado em 2005, edição esgotada, editora CosacNaify

O conto, em toda a sua dimensão, a beleza estética, as palavras bem colocadas, a beleza sonora das frases, os temas abordados, a reflexão de cada leitor, se torna ainda mais belo pela simplicidade sobre a revelação do que é, então, a marca na parede.

No entanto, o objetivo do conto não é este, mas sim, revelar o processo do pensamento, as ideias, um cérebro em sua mais bela fluidez, o que, mais para frente, Virginia Woolf usou em seus personagens com a técnica do fluxo de consciência, portanto, o conto funciona como uma experimentação literária e um encorajamento para que o leitor também se arrisque no ato de pensar.

O conto é um forte e maravilhoso alerta sobre o que estava por vir na vida de Virginia Woolf como escritora, mas também em sua vida pessoal, pois a água, como um lugar para estar e pensar (o peixe que se equilibra na correnteza), foi o último espaço que Virginia Woolf realmente ocupou em vida.

Assista ao vídeo no canal Livro&Café:

Referências:

*Virginia Woolf, Contos completos, CosacNaify, tradução de Leonardo Fróes
**Virginia Woolf, Uma Casa Assombrada, Nova Fronteira, tradução de José Antonio Arantes


Onde comprar livros com o conto Kew Gardens:

Amazon
Estante Virtual (sebos)


Francine Ramos

Criou o Livro&Café em 2011, é professora de Língua Portuguesa, adora ler e trabalhar com mediação de leitura. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

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