5 livros sobre adoção que você precisa ler

Porque em nós, os adotados, o sangue corre sem fixar raízes no chão, somos conhecidos como “filhos do ar”, em Malauí. É a mesma palavra que designa as plantas epífitas, aquelas que se fixam em fios e alta tensão, cercas, grades, árvores e crescem ali, sem, no entanto, lhes pertencer.

De fato, mesmo com a melhor das famílias adotivas, há sempre uma espécie de vazio em nós, uma falta primordial. Orquídeas, bromélias ou simplesmente um desses matos sem nome, haverá em um momento em que olharemos em volta e nos daremos conta de que o lugar em que estamos não é, exatamente, aquele ao qual pertencemos. Por que todo esse fio é negro e eu sou verde? Por que as flores da minha árvore são amarelas se as minhas são roxas?

Mas as perguntas que nos afastam do comum também nos aproximam uns dos outros. Por sermos filhos do ar, uma parte nossa sempre segue com o vento e se há um encontro possível é aquele de quando nos reconhecemos. Desde criança, se eu soubesse que alguém era adotado, imediatamente me identificava com ele. E, em seus olhos, via a mesma identificação. Era como se, sem falar nada, soubéssemos das angústias um do outro. Essa identificação é vital, é nossa raiz comum, invisível, etérea, mas raiz. Nos alimentamos de nos sabermos iguais a alguém. Por isso, e porque também aéreos são os romances, adotados no coração por tantos leitores, decidi escrever uma lista com 5 obras nas quais eu me encontrei e, espero, vocês possam se encontrar também, sendo adotados ou não.

O filho de mil homens (valter hugo mãe)

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“Um homem chegou aos quarenta anos e assumiu a tristeza de não ter um filho. Chamava-se Crisóstomo. Estava sozinho, os seus amores haviam falhado e sentia que tudo lhe faltava pela metade, como se tivesse apenas metade dos olhos, metade do peito e metade das pernas, metade da casa e dos talheres, metade dos dias, metade das palavras para se explicar às pessoas. ”

Só existem (e ainda bem que existem!) crianças adotadas porque existe a vontade de alguém de ter filhos. É essa vontade que move toda trama criada por mãe. Um livro cheio de delicadezas, de amor, de felicidades pequenas e de uma adoção tardia que completa a vida de Crisóstomo e de seu filho. Lindo de se ler, como tudo que mãe escreve.

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Por um simples pedaço de cerâmica (Linda Sue Park)

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“O Homem-garça sempre repetia:

— Quando um monge veio buscá-lo, alguns meses mais tarde, você se agarrou à minha perna boa como um macaco a um galho de árvore, sem chorar, mas também sem largar da perna! O monge foi embora. Você ficou.

Quando Orelha-de-pau era menor, queria ouvir esta história com frequência, como se as repetições pudessem revelar mais alguma informação – como, por exemplo, o ofício do pai, a aparência da mãe e o paradeiro do tio –, mas não havia conseguido mais nenhum detalhe. Já não tinha importância. Se ter um lar significava mais do que viver com o Homem-garça debaixo da ponte, ele não sabia nem precisava saber­­­­­­­.”

Esse livro é a história de um órfão adotado por um morador de rua. Precisa de mais do que isso para emocionar? Não. Mas tem. Tem lições de vida, tem a força da arte transformando a existência de um menino e de um velho, tem muito de coração e de verdade também.

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O alfabeto dos pássaros (Nuria Barrios)

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“A família sempre lhe é dada. Te é dada aquela que adota você e também aquela na qual se nasce. Não é possível escolher a família, mas o amor, sim, é uma escolha. Ninguém pode obrigá-la a amar. Nem sequer o próprio amor. Até quando ele surge, torrencial e poderoso, dentro de você, pode rejeitá-lo. Aceitá-lo ou não aceitá-lo é sua escolha.”

Você já leu algo a respeito das teorias do psicanalista Donald Winnicott sobre a adoção? Quando li, eu me aterrorizei. Especialmente pela máxima: “Nada é mais inadequado do que adotar uma criança e amá-la.” Depois fui compreendendo. De fato, muitas histórias de adoção são cercadas por ódio e revolta. Segundo Winnicott, essa é uma reação de defesa, gerada pelo medo que os filhos adotivos podem ter, medo não serem amados de novo, medo de um segundo abandono. Compreender esse ódio e ver que, por trás dele, há amor é a tarefa proposta pelo psicanalista. E, também, por este livro, em que revolta e fantasia de misturam de uma forma linda, em busca da aceitação da própria história.

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Acabadora (Michela Murgia)

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“Filhos d’alma.

É assim que se chamam as crianças geradas duas vezes, pela pobreza de uma mulher e pela esterilidade de outra.”

Quando uma mulher acostumada a lidar com a morte precisa cuidar de uma vida, tudo pode acontecer. E, de fato, acontece. Segredos, paixões, aceitação, redenção. Nada fica de fora. O mais interessante, porém, é nos darmos conta de que nos tornamos exatamente como nossos pais, adotivos, no caso. A criação nos faz ser quem somos, tanto quanto qualquer genética.

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Por que ser feliz quando se pode ser normal? (Jeanette Winterson)

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“Crianças adotas inventam sua própria história, porque precisam ser assim; há uma ausência, um vazio, um ponto de interrogação já no comecinho da vida. Uma parte importante de nossa história desapareceu violentamente, como uma bomba no útero. O bebê explode em um mundo desconhecido, que só se torna inteligível por meio de algum tipo de história – claro, todos vivemos assim, é a narrativa de nossa vida, mas a adoção coloca você na história depois que ela já começou. É como ler um livro ao qual faltem as primeiras páginas. É como chegar ao teatro depois que as cortinas já subiram. A sensação de que alguma coisa está faltando jamais nos abandona – e não pode, nem deve, ser de outro modo, porque alguma coisa está mesmo faltando.”

De todos os livros aqui, esse é o que mais mexeu comigo. Eu já era admirador de longa data da Jeanette Winterson, especialmente por “Inscrito no corpo”. Mesmo assim, me deparar com esta autobiografia, toda centrada em sua adoção, foi algo indescritível. Eu nunca li descrições mais precisas dos sentimentos e das frustrações de se procurar os porquês de uma adoção. As decepções, as angústias, as feridas, nada é poupado aqui, nem deveria ser. Esse livro foi um encontro para mim. Espero que esse, ou algum outro aqui, seja um encontro para você.

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Todas as imagens são de @li_teraturando


Vinicius Linné

Vinícius Linné é mestre em Literatura e fascinado por ela. Lê, comenta e inventa mil vidas suas dentro dos ares de cada letra que escreve.

1 Comment
  1. Muito obrigada!!!

    Estava procura de mais livros com esse tema, não tem ideia como amei me deparar com seu post. Correr e comprar todos eles.

    =)

    Se encontrar mais sobre tema, pode compartilhar, vou amar! Beijos!!

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