Frankenstein (Mary Shelley): um livro que ainda surpreende

Ler o livro Frankenstein ou o Prometeu Moderno, da escritora inglesa Mary Shelley (1797 – 1851) é uma experiência muito além de um bom romance gótico, pois a sua obra traz importantes reflexões a respeito da vida, da ciência (o livro é reconhecido como o primeiro romance de ficção científica), dos desejos e também das relações sociais. Se por um lado, o monstro assusta, ele também revela o melhor lado do que poderia ser um humano, já que ele mesmo não é. Neste sentido, uma leitura atenta é importante para que o leitor consiga compreender que em toda história, sempre há algo mais a dizer e, se tratando de um clássico, esse algo a mais ganha uma força interessante a medida que o tempo passa.

Do século XIX, quando foi escrito, aos dias de hoje, a história do cientista que deu vida a um cadáver, também é a história da vida de pessoas comuns, quando a disposição para fazer alguma coisa é tão grande que não é possível medir as consequências, tampouco julgá-las.

“Nada é mais doloroso para a mente humana do que, depois de ter os sentimentos instigados por uma rápida sucessão de ocorrências, seguir-se a calmaria morta da inação e da certeza que subtrai à alma, de um só golpe, a esperança e o medo.” (p. 173)

A autora

mary-shelleyMary Shelley começou a escrever Frankestein com apenas dezenove anos. O seu pai, o filósofo William Godwin, foi um importante influenciador dos intelectuais ingleses da época e a sua mãe, Mary Wollstonecraft, foi uma ativista, feminista e responsável por escrever a Declaração dos direitos da mulher, um marco na história da luta das mulheres. Porém, Mary Shelley não chegou a conhecer a sua mãe, pos ela morreu dias depois, por complicações no parto.

Assim, a escritora cresceu ao lado do pai e de uma madrasta, quando, aos dezesseis anos, conheceu o poeta Percy Bysshe Shelley. A história conta que foi amor à primeira vista, porém, ele já era casado. Por dois anos, viveram a paixão às escondidas e no ano de 1814, o poeta abandonou a esposa para viver ao lado de Mary. Notívagos, poetas, loucos, inconsequentes… a dupla vivia com toda a liberdade possível, viajando por toda a Europa com diversos amigos, inclusive o poeta Lord Byron, que colaborou com o ponta pé inicial para a história do doutor Frankenstein.

Como tudo começou

Na Itália, em uma casa às margens do lago de Genebra, o casal Shelley, o escritor Polidori, o poeta Lord Byron e a meia-irmã de Mary, impuseram-se o desafio de escrever uma história de terror. Era noite e chovia, um pouco clichê, sim, mas, entre os amigos que aceitaram o desafio, Mary Shelley foi a única que conclui a história, mesmo tendo sido a última a começar a escrever.

Frankenstein foi publicado em 1818, é o quinto romance da autora e o único que faz sucesso até hoje. A obra, mistura algumas ideias de Rousseau, do naturalista Erasmus (avô de Darwin), mitologia grega – influência de sua infância, quando o seu pai lhe contava histórias sobre Zeus, e, claro, o trabalho do próprio pai, por meio de suas ideias filosóficas a respeito da sociedade e da religião.

Esse tal Prometeu Moderno

O subtítulo “O Prometeu Moderno” remete à mitologia grega, de um titã que roubou o fogo de Zeus. O fogo de Zeus era algo necessário para dar a vida. Furioso, Zeus deixa Prometeu em um castigo eterno: todos os dias ele teria o seu fígado comido por um abutre. É nesta metáfora que mora o terror da obra, porém, o abutre acaba sendo algo muito mais dolorido e profundo, acredite.

Um livro que ainda surpreende

Frankenstein ou o Prometeu Moderno é um livro que ainda surpreende porque é difícil o leitor imaginar o que ele não vai encontrar na história, a partir das referências óbvias em relação aos livros clássicos, do Romantismo inglês, escritos por mulheres. Por isso, a surpresa – além de todas as reflexões a respeito da vida e da morte, o livro faz um importante e difícil caminho sobre a relação, tão particular, que cada um pode ter com a própria ambição. Aquela eterna dúvida sobre os limites da curiosidade, da pesquisa e do conhecimento que, se não usados em dose corretas, deixa qualquer pessoa fora de si, e o pior: fora do mundo.

Na história, vamos conhecer o relato de um cientista, o doutor Frankenstein, que afirma ter feito um outro ser humano. Ele está a bordo de um navio, quase morreu e foi resgatado pelos marinheiros. É uma pessoa misteriosa que demora algum tempo para se sentir confortável em relatar a sua trágica vida ao comandante do navio que, curioso, escuta com muita atenção a história.

Os sentimentos do leitor em relação ao personagem principal, o cientista, podem mudar muito de acordo com o avanço da história. No início ele é um jovem muito inteligente e promissor na área da pesquisa científica, mas com o passar do tempo, com o avanço de sua pesquisa – ele tem como objetivo conseguir fazer o que nenhum outro cientista fez, o doutor Victor Frankenstein distancia-se de sua família e amigos, inclusive da mulher que ele diz ser tão apaixonado, tudo em nome do seu trabalho, a pesquisa, a ciência, o orgulho e uma ambição que pode ser cega até para o leitor, que o reconhece muito mais como uma pessoa concentrada a realizar um grande feito.

A vida dele caminha para um lado obscuro, justamente pelo seu desejo de realizar algo inédito na ciência, porém, ele só percebe isso quando é tarde demais. A sua postura em relação ao monstro, que ele mesmo criou a partir de pedaços de cadáveres, é diferente daquele jovem esperançoso e feliz que entrou pela primeira vez na universidade.

A sua sede de conhecimento se transformou em egoísmo, em algum momento, difícil de citar com precisão, ele quebrou a barreira da ética e também dos limites que compunham o seu próprio ser, sem pensar nas consequências, como se fosse cego em relação ao futuro, apenas com o desejo doentio de dar vida a algo que já morreu.

“Um ser humano que almeja a perfeição necessita preservar a mente sempre calma e em paz, sem jamais permitir que a paixão ou um desejo passageiro perturbem sua tranquilidade. Não creio que a busca do conhecimento seja exceção à regra. Se o estudo ao qual a pessoa se dedica tende a enfraquecer seus afetos e a destruir o gosto por aqueles prazeres simples que não se deveriam deixar contaminar, nesse caso tal estudo é decerto injustificado, ou seja, impróprio à mente humana. Se essa regra fosse sempre observada, se nenhum homem jamais permitisse que, seja qual for o projeto, a tranquilidade de suas relações domésticas se veja afetada, a Grécia não teria mantido escravos; César teria poupado seu país; a América teria sido descoberta de forma mais gradual; e os impérios do México e do Peru não teriam sido destruídos.” (p. 126)

De uma pessoa inteligente, curiosa e perspicaz, doutor Frankenstein se torna o verdadeiro monstro da história, apesar da aparência horrível do homem (sem nome, chamado de monstro) que ele criou. O doutor Frankenstein se tornou um deus para o monstro, porém, a sua própria realização científica, o fez tornar-se também um monstro, uma vez que os seus passos após dar vida ao monstro são bastante questionáveis. Arrependimento, solidão, crueldade, negação e desamor simbolizam o abutre na vida de Frankenstein, enquanto o monstro, apesar de tudo, só desejava ser amado.

Mary Shelley produziu uma obra diferente e original e, apesar de todos conhecerem a história de Frankenstein como uma obra de terror gótico, há muitos temas importantes abordados na obra, que revelam um outro lado do terror, ainda hoje pouco explorado: um duelo com a nossa própria inteligência.

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Francine Ramos

Criou o Livro&Café em 2011, é professora de Língua Portuguesa, adora ler e trabalhar com mediação de leitura. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

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