Desmundo (Ana Miranda), o lado das mulheres na colonização do Brasil

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desmundo-livroecafe“Quantos iam ficar no Brasil? Os que fossem ficar submetessem suas vidas a Deus, suas almas aos padres, sua sorte ao vento e suas mercadorias ao governador. No que uns riram e outros fizeram o sinal-da-cruz.” (p. 48)

Desmundo é um livro de Ana Miranda, escritora brasileira que nasceu em 1951. A obra, marcada por sofrimento, violência e angustia, relaciona a história do Brasil às mulheres, ao mesmo tempo que transforma o leitor, a partir de um reconhecimento dolorido, mas importante, sobre o “nascimento” do país.

Na história, vamos conhecer Oribela, uma órfã que vem ao Brasil como mercadoria, para casar, ter filhos e povoar a nossa terra. Além dela, que atinge um autoconhecimento a medida que tantas violências lhe acontecem, as outras mulheres da história também exemplificam o quanto a vida das mulheres está sujeita ao outro e nunca a elas mesmas.

“Já estou tão cegada pela porta de meus olhos que nada vejo senão deleitos, folganças do corpo, louvores, graças prazentes e meu coração endurecido, entrevado sem saber amar ou odiar. Assim como o azeite acende o lume, a vista acende o desejo. Dá a mim a graça de muitas lágrimas com que lavar o meu sonho, maior que o meu corpo.” (p. 11)

O livro não é indicado se o leitor deseja ler algo leve, para curtir o final de semana na praia, por exemplo, porque os desmundos que acontecem ao longo da obra são muito mais parecidos com o mundo real do que gostaríamos de aceitar. E se você é mulher, com certeza o livro será um motivo para o seu empoderamento, palavra tão usada no momento para dar voz às mulheres. Mas, se por um lado, isso pode ser feito de um jeito belo e positivo – mostrando todas as maravilhas em ser mulher, por outro lado, em Desmundo, é justamente pela enorme fragilidade da mulher perante o mundo constituído de brutalidade e sexismo que a história acontece.

“O tempo que passava e não passava, a viagem infernal feita dos olhos das outras órfãs que me viam e descobriam, de meus enjôos, das náuseas alheias, da cor do mar e seu mistério maior que o mundo.” (p. 15)

Sabemos que o Brasil foi colonizado com o domínio da igreja e dos homens. Aqui, os índios não tiveram voz, assim como as mulheres que também cruzaram o oceano para tentar uma possibilidade de vida em terras brasileiras. E a nossa narradora-personagem, Oribela, é uma mulher com visão mítica, meio espiritual, meio misteriosa, que cruza um caminho belo entre a consciência e a inconsciência. Ela, desamparada, tem uma existência bruta e corajosa perante a intolerância religiosa, o desconhecido por todos os lados, o conflito da guerra, o encontro entre povos tão diferentes e a violência constante – física e emocional.

“Porque todos pecamos e mais pecamos numa terra assim distante por haver turbações maiores e à míngua e sentirmos ainda mais a substância de nosso corpo não solamente pelo ventre mas por todos estarmos negligentes de nosso próprio amor e de nossa própria vida e muitas coisas contrárias e devairadas dentro do coração.” (p. 37)

Ao casar-se com um dos portugueses já instalados no Brasil, obrigada por um padre que “controlava” os casamentos para não permitir a mistura das raças (índios, negros e brancos), ela se torna cada vez menos dona de seu próprio corpo e alma. Mas suas contantes tentativas de fuga, uma atitude desesperada e também corajosa, transforma a história de Oribela, mesmo com tantos sofrimentos (a violência física e psicológica é muito forte), em uma história de luta.

“Reparasse o homem na formosura de minha feição, na suavidade mulheril e esquecesse da rebeldia, tudo o mais era infalível. O homem me veio a mirar e no rosto lhe cuspi.” (p. 56)

O livro Desmundo criou uma relação muito importante entre a mulher e o Brasil. Se a história contada nas escolas e até por nós mesmos, não coloca a mulher como parte essencial do que constitui o nosso país, torna-se uma visão verdadeira a história escrita por Ana Miranda, que não poupa a essencia das coisas – do homem bruto, da igreja manipuladora, do poder, da guerra, e, principalmente, da violência presente em tudo.

Nesse conjunto, pelo olhar sexista, a mulher participa apenas como uma peça muda, sem voz, sem vez, sem vida. Porém, dentro de Oribela e as outras mulheres da história há uma vida triunfante, no sentido que não se deixa vencer por essas agruras do mundo: agradar homens, agradar a igreja, agradar uma cultura, servir-se de objeto, slienciar-se. No fundo, em Oribela, tão violentada, mas tão violentada… mora cada mulher que todos os dias se descobre um pouco mais livre.

“Piedade, piedade. E era tal a visão daquele sofrimento que me certifiquei para sempre de estarmos no inferno.” (p. 198)

Assista ao vídeo:

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Criou o Livro&Café em 2011, é professora de Língua Portuguesa, adora ler e trabalhar com mediação de leitura. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

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