Persépolis (Marjane Satrapi): uma HQ para quebrar barreiras

Marjane Satrapi nasceu no Irã em 1969 e, por conta dos tantos conflitos de seu país, mudou-se para a Europa, lugar em que vive hoje, mais precisamente, em Paris. Persépolis, sua HQ mais conhecida, foi escrita pela necessidade que a autora sentia em fazer com que os seus amigos europeus entendessem a história do seu país, as suas culturas e, claro, o quanto foi difícil ser uma garota iraniana em plena guerra.

Um pouco de história

Para entender a complexidade dos conflitos Irão-Iraque-Síria-petróleo-treta-never-ends não é nada fácil. Como no livro 1984 (Goerge Orwell), a impressão é que cada hora um país “está ganhando”. Mocinhos e bandidos também possuem papéis invertidos, ao ponto de ficar difícil, para a gente aqui do outro lado, entender, situar-se e opinar em relação à tanta barbárie. Por outro lado, o livro deixa claro que, mais uma vez, a briga é pelo poder e quando temos esse ingrediente na história, há outros países fazendo parte da grande briga, como os EUA, a Rússia e a Inglaterra.

A guerra é um conflito que pode começar por um único motivo, mas quanto mais os dias se passam (e meses, e anos, e séculos) fica mais difícil entender como começou. É como uma simples briga com um amigo. De repente, ninguém mais tem razão, mas todos brigam fielmente por seus propósitos para vencer a batalha.

ira-mapaO Irã está na Ásia Ocidental. Antigamente chamava-se Pérsia e foi invadida por árabes, mas isso há muito tempo, lá por volta de 642. Com essa invasão, que terminou com a derrota do país, os persas adotaram o islã e a sua vertente que conhecemos como xiismo. O tempo foi passando. Maomé morreu. Um primo dele apareceu, casou-se com uma princesa. Mataram o primo, mataram a princesa. Outras linhagens da família apareceram. Mais morte, mais conflitos. A Pérsia deixa de ser uma nação independente por quase cem anos, mas retorna, devido à força de sua cultura e língua no século XIV, o que fez o país ser cobiçado pela Rússia e Inglaterra. Com a descoberta do Petróleo e a 1ª Guerra Mundial, os ingleses passaram a interferir cada vez mais na economia do país.

Em 1925, Rezah Khan, tomou o poder e mudou o nome do pais para Irã. Isso gerou desconforto nos religiosos, principalmente porque Rezah também acelerou a “ocidentalização” do país.

Segunda Guerra Mundial. Os países ricos ainda de olho no Irã. Os soviéticos ocuparam o norte do país, os ingleses o sul e os EUA obriga o país a entrar em guerra com a Alemanha. Em 1953 teve golpe de estado por conta do petróleo. Os americanos submetem o país a um embargo. Derrubam o poder, vem outro poder. São tantos nomes que. Mas é esse conflito tão intenso e complexo que faz parte da herança de Marjane Satrapi, uma garota que só queria viver em paz e feliz em seu país.

Liberdade, liberdade, liberdade!

A HQ começa com Marjane Satrapi ainda garotinha, vivendo o ano de 1980, um ano depois da chama “Revolução Islâmica”, que, pela primeira vez, instituiu o véu obrigatório nas escolas. É claro que as crianças não entenderam muito bem o motivo. Os mais religiosos, se adaptaram com facilidade. Aqueles que não seguiam os preceitos do islamismo, não aceitaram muito bem a ideia. Marjane e sua família fazem parte desse segundo grupo.

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Assim, desde as primeiras relações sociais de Marjane, nada foi fácil. Ela, como uma garota de uma família não-religiosa e também muito crítica em relação aos conflitos econômicos e religiosos do país, não teve uma infância tranquila, tampouco uma adolescência saudável. A história ainda vai contar um pouco sobre a sua vida adulta, que tinha tantos sonhos e revoluções para fazer, porém se vê presa nas próprias escolhas.

O mais interessante da HQ, além das ilustrações lindas, é a sinceridade da autora em falar de sua própria vida. Muitos assuntos, que poderiam lhe causar vergonha, são tratados de uma maneira muito transparente, que relaciona com o simples fato dela ser uma garota iraniana, que todos os dias precisa encarar preconceitos. Se no Irã, ela não conseguia se sentir à vontade por conta da perseguição política, a ilusão de viver em um país considerado “livre” se concretiza porque todos os dias ela teve de lidar com os olhares estranhos ao caminhar pela rua, a indiferença dos amigos da escola, o dinheiro escasso e a solidão. Soma-se a essa realidade, a adolescência.

É dolorido imaginar que uma garota de apenas 14 anos precisa morar em outro país porque o seu não garante a sua própria segurança. Os pais de Marjane mandam a garota para a Áustria porque sabem o quanto pesado estão os conflitos no Irã e ela, como uma pessoa que não consegue se controlar perante tantas injustiças (mesmo em situações de seu cotidiano escolar), é mais seguro ficar longe de um poder que, se preciso for, prende e mata quem tem opinião própria.

São os pequenos acontecimentos de seu cotidiano que trazem o drama e o humor à história. Um exemplo é a brilhante relação de Marjane com a sua avó. Ela, tão dedicada à neta, mas também à justiça, presenteou a menina com momentos para guardar por uma vida toda. Assim, o jeito que Marjane encontrou para sobreviver longe de sua família foi por meio desse resgate do que havia de mais bonito em sua própria vida, porém ela demora um certo tempo para entender tudo isso e passa por situações difíceis com os amigos, os namorados, as drogas e o preconceito sempre presente.

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Persépolis, então, coloca-se como uma obra atemporal, pois qualquer leitor irá se identificar com a garota. Os conflitos de sua infância relacionam à guerra, mas também a própria vivência infantil, assim como a sua adolescência e a vida adulta. Se por um lado, muitos não conseguem entender como sobreviveram a momentos tão particulares e difíceis da vida, quando há um cenário de guerra, tudo isso fica muito pior. Se o leitor, ao terminar a leitura, sentir um pouco mais de empatia pelas pessoas que fazem parte dos países em guerra e que possuem uma cultura diferente; e não julgá-las; e não imaginar que uma bomba atômica pode resolver tudo, o livro cumpre o seu papel de quebrar fronteiras, vencer barreiras e abraçar com amor.

Assista ao vídeo sobre o livro no canal Livro&Café: [d#adyt]

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Francine Ramos

Criou o Livro&Café em 2011, é professora de Língua Portuguesa, adora ler e trabalhar com mediação de leitura. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

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