Infinito agora (Los Porongas): sobre o amor e a liberdade nestes tempos estranhos

Além de gente, além de vida, além do próprio estado, existe também Rock (e do bom) no Acre.

Veio de Rio Branco esta pérola que é Los Porongas. Tocando juntos desde 2003, passaram por festivais universitários e gravaram seu primeiro álbum, “Los Porongas”, em 2007 com produção de Philippe Seabra (Plebe Rude), que foi colocado pela Rolling Stone entre os melhores álbuns do ano.

los-porangas-infinito-agoraDesde este primeiro disco o cuidado com a harmonização, com a melodia e com a poética dão tom do que se poderia esperar do grupo. Sim, são canções de amor que se ouve nesse disco, como nos posteriores, mas são bem feitas em cada detalhe, sempre fugindo do comum, do simples , principalmente, do piegas. É Folk porque se pode tocar em um violão qualquer em qualquer canto e porque fala do amor poeticamente. É Rock porque cheira a pretensão popular e porque quer fazer parte. É Psicodélico porque transcende e porque nos leva junto numa viagem sem volta (ouviu, não tem como desouvir).

E veio o segundo trabalho. E voltaram o capricho, a poesia e a viagem. Tudo ainda estava lá em “O Segundo Depois do Silêncio” (2011), mas com mais calma e suavidade, aparentando menos urgência e vontade de fazer parte (menos atitude Rock). Soava mais íntimo e com mais ênfase no texto das canções. E era um trabalho também de requinte para os ouvidos do brasileiro que ainda busca bom som e bom Rock brasuca.

Mas o “Infinito Agora” (2015), de certa forma, sintetizou o bom de cada um dos dois anteriores. O peso e a velocidade do primeiro também não aparecem neste terceiro disco, mas Diogo Soares (voz), Carlos Gadelha (guitarra), Márcio Magrão (baixo) e Jorge Anzol (bateria), os caras do grupo, deram também importância especial à parte musical das canções, mais até do que deram no primeiro; e as letras ainda continuam com a mesma leveza, profundidade e viagens imagéticas, até mais do que no segundo disco; incluindo um citação de um poema do concretista Haroldo de Campos numa das canções, “Morrenasce”.

O amor e o intimismo também permanecem, mas é cantado e declamado de modo tão sutil e leve que não cansa nem deprime. O tema é tratado de forma que a alegria e a tristeza, o particular e o social, o bom e o ruim (tudo que faz parte real de qualquer relacionamento concreto) se misturam tão bem que o que se sente é tranquilidade e vontade de sentir ao ouvir as canções. Não há nelas sofrimento nem euforia, só leveza e tranquilidade, como se amar (e desamar) fosse tão comum como levantar e andar, como chegar e se sentar (e por ventura não o será mesmo?).

Aliás, do que as canções de amor dos anos 1980, felizmente, deixou pra trás e não faz falta alguma são o sofrimento e a euforia (ou ao a casualidade e o desapego), modos de falar de amor que acabaram por ficar a cargo dos sertanejos da vida.

O que mais me agrada na nova música pop do Brasil é esse modo de encarar tudo com naturalidade e, ainda assim, projetar sentimento em tudo. Delicadeza de arte pura.

Vale muito a pena ouvir.

Vai lá, e boa viagem!


22Foto: UOL Música


Alexandre Cimatti

Sou natural da Capital do Estado de São Paulo, mas vivo no Vale do Paraíba desde que minha família optou por uma vida mais tranquila e saudável no lugar da velocidade e dos perigos da metrópole. Gosto de música desde que tenho ouvidos. Quando mais jovem, queria achar algum meio de sobreviver de música: tentei ser músico; estudei jornalismo imaginando que quereriam me contratar só pra escrever sobre música; cursei letras pra me aprofundar no assunto (o texto das canções sempre foram mais importantes pra mim)… hoje dou aulas de Língua Portuguesa para o ensino fundamental, onde tento encaixar de algum modo o que aprendi e o que se pode ensinar com as letras das canções.

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