Simpatia pelo demônio (Bernardo de Carvalho): a zona de conflito amorosa

“As contradições são sempre maiores
que a consciência das contradições.”

O protagonista do mais recente romance do escritor brasileiro Bernardo Carvalho atua há mais de trinta anos em zonas de conflito ao redor de mundo, como funcionário de uma agência humanitária. Rato, nome do personagem, se vê, depois de anos em áreas de alto nível de periculosidade, posto diante de uma missão peculiar: resgatar um misterioso refém, mas sob condições completamente adversas. Dessa vez ele não iria negociar com os sequestradores, não iria entrar em contato com eles de forma direta, não iria como funcionário da agência para qual trabalhou quase toda a vida. Iria só, sem qualquer auxilio ou recurso de emergência.

Absorto ao ouvir do diretor da agência a proposta quase suicida de resgaste, Rato também aceita a condição cabal para executar a nova missão que lhe fora designada: para desatrelar qualquer ligação sua com a agência e os países que a financiam, ele precisa ser demitido. A aceitação de Rato para o absurdo que lhe é proposto é completamente subserviente.

A cena em que o diretor lhe pede para burlar as convenções acaba por ser também um aspecto sintomático da metáfora que o livro de Carvalho representa: é uma obra sobre a ruptura das regras. Rato, já no alto dos seus mais de cinquenta anos, vive uma crise pessoal e profissional grave quando recebe a missão com aspectos suicidas e que aceita sem resistência. Rato está agora no grupo daqueles que não têm nada a perder.

Rato chega no país completamente destroçado pelas guerras entre as facções rivais em conflito. A única ajuda que Rato dispõe provém de um motorista e um guia. A tensão entra em choque também com as estranhas facilidades que ele consegue: é admitido sem parecer despertar grandes desconfianças no país, a ponto de poder transitar com o dinheiro do resgate livremente pelas ruas.

Porém, a situação toma uma reviravolta, ele se vê numa situação extrema. Como forma de descolamento dessa realidade imediata, Rato retoma os anos anteriores e passa sua vida em retrospecto, voltando há três anos, quando conhece chihuahua — com o nome em minúsculo mesmo, como se para indicar sua pequenez e fragilidade —, com quem tem um caso confuso e conturbado.

“Rato” é o apelido que chihuahua dá para seu amante. chihuahua é um neurocientista de aspecto misterioso, manipulador e infantil. Se encontrando com Rato num momento da sua vida em que este passa por uma espécie de crise do pós-40, onde o que se enxerga é somente um vazio que só pode ser preenchido com uma aventura amorosa, com um novo amor forte o suficiente para lhe dar de volta algum ânimo para existir.

É nessa fragilidade que chihuahua encontra guarida para a relação que vem se estabelecer entre os dois. Rato é casado com uma mulher, com quem tem uma filha. chihuahua, por sua vez, é casado com o Palhaço, nome dado por Rato ao companheiro de seu amante. Ironicamente, Palhaço de fato exerce o ofício de palhaço, um clown.

Os nomes dos personagens de Bernardo Carvalho apontam a característica de precisão na construção do seu romance. Nada na obra parece ser um elemento aleatório. O caso entre Rato e chihuahua desenrola-se exatamente encaixado nesse espectro da manipulação, no jogo abusivo da relação viciada, traçada sob as linhas da condução egoísta, com tendência para a cegueira completa.

A relação que então se formata entre Rato e chihuahua vai adotando contornos cada vez mais obsessivos, possessivos, ao mesmo tempo que no discurso o que se sustenta são outros princípios. Como se existisse duas relações embaralhadas uma na outra: aquela relação oralizada com base num discurso amoroso canhestro, bobo, infantilizado, idealista e a relação real, de jogo de poder rasteiro, de violência psicológica, de manipulação da carência do outro. Não à toa a metáfora da zona de conflito seja tão latente durante todo o percurso do romance. O que o leitor lê na obra de Bernardo Carvalho é exatamente esse raio-x da zona do conflito amoroso, numa guerra travada entre duas pessoas que se utilizam de todos os recursos para atingir o outro, ao mesmo tempo que diz querer vê-lo bem.

chihuahua é, como depois Rato saberá numa conversa com Palhaço, a personificação da destruição generalizada, do uso do outro de forma deliberada e baixa. Um simpático demônio, que vai ganhar sua antipatia, enquanto angaria a completa e devota simpatia de Rato. A relação entre chihuahua e Rato é consequência da despersonalização de um no outro, quando uma personalidade se quebranta, se dilui completamente para ser apenas uma sombra opaca que só consegue ter contorno com base na luz do outro. Mesmo quando se entende livre do amante, Rato não consegue se desvencilhar da ideia de amor — doentio e, por isso, cego — que chihuahua lhe impregnou.

“Deus é também uma estratégia”, afirma o narrador em dado momento do enredo. Se fôssemos tomar a analogia cristã que afirma que “aquele que não ama não conhece a Deus; porque Deus é amor”, facilmente se poderia também depreender que todo amor é uma estratégia. Vence nessa guerra aquele que soube usar melhor as armas que possui.

A própria percepção de realidade é distorcida durante o romance. Bernardo Carvalho também joga com o leitor, ao iniciar a história com uma tensão, transformá-la na expurgação de um relacionamento abusivo e doentio, e depois nos confrontar de novo com a realidade, agora ela já percebida sob outra perspectiva. O romance acaba também por adotar um jogo, muito semelhante ao da relação de Rato com chihuahua, em que a expectativa é “frustrada” com o final onde as indefinições se tornaram ainda maiores que do que as certezas. O que pode ser interpretado como, ao se tratar de amor, todas as definições são incertas.

O romance de Bernardo de Carvalho é poderoso ao lidar com questões contemporâneas, como as guerras e os seus objetivos políticos, tendo como pano de fundo uma relação problemática que desvela um conjunto de reflexões sobre a perigosa zona que é a dos relacionamentos amorosos.

Tanto Rato, quanto chihuahua, são personagens densos que puxam o leitor para um universo quase fabuloso — na acepção da fábula, do antropomorfismo ficcional —, que carrega diferentes pesos em diferentes momentos da narrativa. É um livro poderoso, que apresenta as nuances dos relacionamentos, a potente capacidade de Bernardo em refletir sobre os acontecimentos sócio-políticos contemporâneos num domínio de mestra na condução da narrativa, além da sua capacidade de utilizar recursos eruditos sem torná-los enfadonhos, e ainda nos presentear com um romance muito bem posicionado entre os melhores lançados nos últimos cinco anos no cenário da literatura nacional.

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Ricardo Silva

Ricardo Silva é leitor de bula, de pequenas mentiras e crítico literário. Eterno acadêmico de Filosofia, escreve sobre literatura e livros desde que se entende alfabetizado. Mantém o blog “Roedor de Livros” e colabora para diversas publicações – e em todas fala da mesma coisa: livros.

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