Quando a poesia demora…

Ser uma leitora de prosa é também buscar poesia. A poesia, na primeira lembrança que vem à cabeça, pode ser apenas os versos de um poema, do clássico ao contemporâneo, com rimas (blé) ou sem (muito melhor!). Mas quando eu busco a poesia, aquela que faz meu coração aquecer, encontro-a na prosa. Há uma frase de Umberto Eco assim: “Todos os poetas escrevem poesia ruim. Os poetas ruins as publicam, os poetas bons as queimam”. Eu concordo com ele, mas também reconheço a arrogância na frase, porque, há outros escritores (não lembro o nome de um para citar agora) que dizem que o sonho de todo escritor de prosa é ser um poeta.

Controvérsias à parte, para mim, a poesia mais bonita mora na prosa. É a tal prosa poética que me encanta. Porque, no universo da literatura, não quero apenas rimas bonitas e metáforas originais. Quero isso, mas também grandes personagens, diálogo memoráveis, cenas construídas de um capítulo a outro, um clímax que me deixe sem fôlego e um bom desfecho; se triste ou feliz, não me importa, mas quero a literatura em toda a sua magnitude, algo que raramente consigo encontrar na poesia.

Há algumas semanas, durante a leitura do livro “A mão esquerda da escuridão” senti falta da prosa poética. O livro, de ficção científica, é uma narrativa quase como um estudo antropológico, o que o torna simples, eficaz, mas sem floreios literários. Porém, em um determinado momento, uma personagem, ao escrever sobre um amigo que encontrou na história e as suas divergências sociais e comportamentais me deu um belo momento de poesia:

Parecia prestes a chorar, mas não chorou. Acredito que considere o choro mau ou vergonhoso. Mesmo quando esteve muito doente e fraco, nos primeiros dias de nossa fuga, ele escondia o rosto de mim quando chorava. Razões de ordem pessoal, racial, social, sexual – como posso adivinhar por que Ai não consegue chorar? Contudo, seu nome é um grito de dor. (p. 222)

Essa simples conclusão sobre o nome da personagem Genly Ai, me trouxe uma outra perspectiva da história que, demorou para fazer meu coração aquecer. É simples, mas funcionou para mim.

E nas minhas leituras, costumo sempre marcar as frases mais poéticas, o que torna os meus livros, muitas vezes, uma vergonha para aqueles que nutrem um amor louco pelo livro – não pode rasurar, marcar, sujar, borrar. Ah! Se eles soubessem da alegria quando encontro a poesia, talvez eu seria mais compreendida.

Em “A mão esquerda da escuridão”, apenas o trecho acima recebeu uma marca do meu lápis por motivos poéticos. Um nome tão simples e curto, mas que é um grito de dor. Quando o livro acaba é possível entender mais sobre a solidão dessa personagem. A autora (Ursula K. Le Guin) escolheu um bom nome e encaixou suavemente, em sua prosa, uma poesia que pode fazer o leitor compreender quase todo o sofrimento do personagem. Isso é tão lindo.

Às vezes a poesia demora, mas compensa.

Imagem: Shutterstock


Francine Ramos

Criou o Livro&Café em 2011, é professora de Língua Portuguesa, adora ler e trabalhar com mediação de leitura. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

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“Livros, o precioso sangue dos espíritos imortais” Virginia Woolf