Os delírios e os deslizes de uma leitora

Ler, ler, ler. Parece que a gente sempre acerta na escolha dos livros. Talvez para quem vê – de longe, seja essa a imagem, mas não é assim. Erramos, erramos e erramos muito mais do que gostaríamos de admitir. Assim, escrevendo, posso usar três vezes a palavra que desnuda a minha imagem de boa leitora, porque em muitos momento o poder da palavra escrita não supera a palavra falada. Se eu falar – se eu tiver coragem de dizer alto que errei nas escolhas… conseguirei fazer isso?

Meu delírio começa com a constatação básica de que não vou ler todos os livros do mundo, portanto tenho que fazer boas escolhas. Não quero que nada escape, mesmo sabendo que isso é como ser um graveto no meio de uma enxurrada.

Fui verificar se o café estava pronto. É possível a aba da cafeteira italiana ser derretida pelo fogo? Aconteceu comigo agora. O cheiro do café ficou misturado ao cheiro de plástico queimado, mas a vida segue e, enquanto eu colocava café na minha caneca da Mulher Maravilha pensei no título para este post. Pensei em declínios, mas considerei que delírios ficaria melhor.

Declino quando o livro é ruim. Declino quando personagens e linguagens não me emocinam. Muitas vezes não é a emoção sobre as ações, atitudes ou consequências de uma personagem que torna o livro bom, isso pode funcionar nos livros para jovens leitores, para aqueles que estão começando a trilhar o caminho da leitura. Mas, para os leitores mais antigo – prefiro a palavra antigo que experiente mesmo, porque a gente também aprende que quanto mais se lê, menos se sabe ou tem certeza das coisas, mas o coração vai se completando de coisas boas & profundas & intensas. Então, se o livro emociona porque você descobre ali uma linguagem única – isso é tão difícil de explicar! Todo o resto vem e você se sente feliz em aguentar a enxurrada, mesmo ainda sendo o graveto. Mas é um graveto feliz e consciente de si mesmo, porque é um velho graveto. Posso dizer velha graveta? Quero.

Comecei o ano lendo devagar, sem pressas ou metas. Demorou para chegar uma leitura avassaladora, o que já estava me deixando preocupada.

Interessante que podemos usar o artifício de enganar-se e agora compreendo que fiz isso. Dos livros que li, muitos pensei ser uma leitura boa. Uau. Nossa. Caramba. Que estilo. Que linguagem. Mas não era nada disso, era apenas um desejo de amar, eu queria me apaixonar, mas me iludi.

A última ilusão veio com o livro Fundação, do Isaac Asimov. O cara é legal. Dele já li As Cavernas de Aço e também Eu, robô. Duas boas leituras. Mas esse último, que é uma trilogia, acredito que não vou conseguir passar para o segundo volume porque a história não me cativou, porque os recursos da narrativa considerei tão simples (coloca toda a explicação da história em diálogos de personagens vazios), porque faltou vida a eles, porque não tem uma personagem mulher que faça parte do universo intergalático a não ser para satisfazer um homem. Foi triste.

Mas, então – aqui, neste texto, é o momento do clímax: eu comecei a ler A guerra não tem rosto de mulher, da Svetlana Aleksiévitch. Quem pronunciar esse sobrenome sem errar, não é humano. E MEU DEUS QUE LIVRO! ACONTECEU! ESTOU APAIXONADA NOVAMENTE! ENCONTREI O BRILHO DA VIDA! VOLTEI A TER ORGULHO EM SER UMA LEITORA.

Estou apenas na página 19. Talvez seja cedo para dizer algo mais completo a respeito do livro, mas sabe quando o autor conversa com você? Sabe quando ele caminha para o simples e diz coisas complexas? Sabe quando você vê ali um texto confortável, de uma pessoa brilhante e tranquila? Para explicar, o melhor jeito, é colocando aqui um trechinho do livro. Falam que o correto é falar excerto, mas oh! palavra feia!

Muitas vezes reparo em como elas estão escutando a si mesmas. O som de sua alma. Conferindo-o com suas palavras. Depois de longos anos, a pessoa entende que aquilo era a vida, e que agora é preciso fazer as pazes e se preparar para a partida. Contra a vontade e com pena de desaparecer assim sem mais nem menos. Sem cuidado. Na caminhada. E, ao voltar o olhar pra trás, nele está presente não só o desejo de contar sua história, mas também de alcançar o mistério da vida. (p. 15)

O livro é sobre as mulheres na guerra. Aquelas que sobrevivem – fisicamente ao horror, mas que cada uma encontrou um jeito particular – mas que forma um conjunto, de como seguir em frente. Está lindo e emocionante, mesmo. E vou parar de escrever porque quero voltar a ler. Sou uma leitora feliz.


Francine Ramos

Criou o Livro&Café em 2011, é professora de Língua Portuguesa, adora ler e trabalhar com mediação de leitura. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

9 Comments
  1. Ano passado eu comecei uma trilogia famosa sobre bruxas e vampiros, a escritora teve de uma imaginação incrível para criar o plano de fundo, atiçava a curiosidade, porem os personagens principais me irritavam, eu lutei mas não consegui terminar o primeiro livro, fiquei chateado por isso, mas apendi que você não necessariamente fracassa por desistir de um livro, na real você ganha a oportunidade de seguir em frente para encontrar uma história que realmente vai te prender por completo.

  2. Fran,

    que coincidência linda ler esse post! Eu estou exatamente nessa fase de pegar um livro, não me encantar, pegar outro e lagar pelo mesmo motivo. E a frustração de estarmos em abril e não ter lido uma unica leitura boa desanima mais ainda. Quando foi essa semana sonhei que lia Svetlana e acordei feliz. Ai entro no seu blog e leio esse texto!! Destino me indicando o caminho, hein?!

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Livro&Café é feito por Francine Ramos, desde 2011.

“Livros, o precioso sangue dos espíritos imortais” Virginia Woolf