Não é o gigantismo da frase…

“Era um ser feito de não sei que material, ferro, vidro, urtiga, mas vivo, vivo e com a respiração quentíssima que lhe saía do nariz e da boca.” (p. 20)

Isso é Elene Ferrante no livro “A amiga genial“. É a descrição de um homem que a personagem-narradora, durante a sua infância, tinha muito medo, como se o homem fosse um monstro, um “ogro das fábulas”.

Quando li esse pequeno trecho, fiz a imagem de um homem realmente medonho, grotesco e cheguei a imaginar o seu cheiro, uma mistura de óleo e ferro. Achei essa descrição tão forte que passei a admirar a escritora a partir de então. Porque eu acredito que a literatura bem feita é assim, consegue descrever detalhes de um jeito novo, diferente, fora do comum. É claro que há outros elementos importante numa narrativa para tornar o livro especial, mas também está nos pequenos detalhes a magia tão particular de cada escritor.

No livro “Para ler como um escritor“, Francine Prose comenta sobre a importância de boas frases. Ela usa vários autores como exemplo, não usa a Ferrante, mas poderia. Para ela, “não é o gigantismo da frase, mas sim sua inteligibilidade que a torna tão digna…“. Em outro momento ela diz que também “não é o conteúdo – o sentido – da frase que nos prepara para o que está por vir, mas a chance de observar a mente de uma escritora.

Quando leio que uma pessoa é feita de “não sei que material, ferro, vidro, urtiga, mas vivo, vivo e com a respiração quentíssima que lhe saía do nariz e da boca“, é como se acontecesse um mergulho na imaginação do autor e esse presente – tão raro – quando encontrado, me dá aquela sensação de que estou lendo um grande livro.


Francine Ramos

Criou o Livro&Café em 2011, é professora de Língua Portuguesa, adora ler e trabalhar com mediação de leitura. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

No Comments Yet

Leave a Reply

Your email address will not be published.

Primeiramente, Fora Temer!

Livro&Café é feito por Francine Ramos, desde 2011.

“Livros, o precioso sangue dos espíritos imortais” Virginia Woolf