Sete Anos (Fernanda Torres): o maior elogio que posso fazer é…

Resenhas

Sete Anos (Fernanda Torres, Companhia das Letras), é um livro que reúne textos publicados entre 2007 e 2013 nas revistas Veja Rio, Piauí e no jornal Folha de São Paulo. Apenas uma é inédita, a que fala sobre a morte de Fernando Torres.

Fernanda fala do ofício do ator e da arte cênica fazendo um apanhado da história do teatro, cinema e televisão em cujos palcos transitou desde cedo na vida.

Há pontos negativos. Fernanda carece da técnica do escritor profissional e transporta para o papel certos vícios de linguagem cuja origem se compreende quando se lembra de seu sucesso como comediante. O caricato, a superficialidade, a generalização que provocam o riso contaminam sua prosa. Ela abusa dos clichês e mostra sem aprofundar. Lembremos que os textos foram originalmente escritos para colunas de mídia impressa, espaço rígido em seu formato. Imperdoável é a falta de revisão da Companhia das letras que deixou escapar mistura de tratamentos, como nessa frase da página 123: “O humorista fará piada com sua desgraça, o escritor te roubará as histórias e o jornalista usará sua informação.

O texto Buquê nada acrescenta ao leitor e destoa do conjunto. Fala da histeria feminina e de sexo oral em uma conversa à mesa que pretende ser engraçada, porém, “entre o chocolate e a carícia íntima“, “esqueçam os aspargos” e a crônica.

Perdoemos estes deslizes da escritora Fernanda, já que a atriz nos presenteia com um retrato precioso dos bastidores da arte e se dispõe a “falar, sem deixar de ser pessoal, sobre coisas de interesse comum.

O texto de abertura é Kuarup, no qual ela nos detalha à sua maneira engraçada os apuros da equipe de filmagem, isolada no Parque Nacional do Xingu, alojada em barracas baixas que obrigava as pessoas a viverem acocoradas, observadas por famílias indígenas, tendo o material de cena que pernoitara ao relento devorado por formigas. A autora confessa ter perdido seus “delírios de moça fina” e desenvolvido um certo “ceticismo em relação à vida selvagem“.

Comparando diretores, roteiristas, passeando entre grupos e tendências, Fernanda cita a mãe para diferenciar trama e drama. A trama é técnica fria, o sofrimento egoico que o psiquiatra cura. O drama é apanágio dos mestres, é a transcendência da alma, toca fundo o espectador.

Achei curiosa a revelação de Bráulio Mantovani: “quando disseram que meus personagens americanos eram estereotipados, eu não tinha a menor ideia do que fazer para humanizá-los.” 

Quando o assunto é política, no entanto, Fernanda vacila; usa tantas figuras de linguagem que acaba por dizer coisa nenhuma. Melhor calar, como fez a mãe ao ser convidada para entrar na política, como Ministra da Cultura. No entanto, ela é comentarista política…fica sempre em cima do muro.

No capítulo Os Russos há interessantes considerações sobre o uso da literatura como solução para o ensino da política. A autora justifica: “os personagens debatem, discutem, evita-se a doutrinação sem contexto, permite-se a retrospectiva histórica da reflexão; usa-se a contradição humana como narrador”. Ao término, o texto, que mantinha o seriedade do tema, desagua na desastrosa última frase: “a arte é uma baita aliada da educação”. Em minha opinião, a palavra baita descontrói o texto.

Minha crônica preferida foi No dorso instável de um tigre, sobre o ofício de ator:

“O deus do teatro é Dionísio, o doido, o catártico, o de vinho, o do êxtase. É preciso livrar-se de Narciso. Os iniciantes vivem por definição em estado de pânico. A angústia em cena é o motor do comediante; controlá-la é a arte do profissional”.

Segundo Fernanda, teatro é fingimento mútuo. “Eu finjo ser outro e você finge que acredita”. A fobia do ator é o medo da cena. Se cavalo e entidade se misturarem no palco, é o colapso, o risco de perder o sentido da profissão. “Que razão há para fingir ser outro?”. Há uma linha bem tênue separando personagem, alucinação programada e loucura. “O bom ator não representa, é.” O final deste texto é perfeito: “Tudo se primeira fala da primeira cena de Hamlet: Quem está aí?”

O maior elogio que posso fazer ao livro é: Fernanda escreve com a alma.

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Sonia Regina Rocha Rodrigues
É escritora e médica, idealizou o jornal “Um Dedo de Prosa” e foi co-editora da revista literária “Chapéu-de-Sol”, que circulou em Santos/SP de 1996 a 2001. É autora dos livros de contos “Dias de Verão“, (1998), É suave a noite (2014), Coisas de médicos, poetas, doidos e afins (2014)
Em 1996, participou da fase regional do Mapa Cultural Paulista com o conto “A Auditoria”, representando a cidade de Bebedouro. Sua monografia “A Importância da Cultura Para a Formação do Cidadão” foi utilizada pelo prova do Enem em 2011. Tem um blog.

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