As mulheres de Lima Barreto

Há diferentes representações femininas tematizando os contos e as crônicas de Lima Barreto. São mulheres cheias de estigmas, ora samaritanas, ora repletas de pecados capitais. Comuns e incomuns, se conversam, se conectam com seus paradoxos e paradigmas.

 

Com o exagero realista puramente brasileiro, Lima Barreto construiu suas personagens a partir de uma ótica pessimista, bem longe das alcovas romantizadas, foi de barzinhos a pensões, de subordinados aos soberbos de um subúrbio sem voz.

 

Eis aqui algumas dessas mulheres: A Clara, de Clara dos Anjos, bem educada pela mãe Engrácia, transmuda-se de ingênua à corajosa, mas no final: nada. Tanto Engrácia como Salustiana, mãe de Cassi, educaram suas crias com todo o cuidado, mimando-as e mostrando o mais apropriado para seus modelos sociais. Com Dona Laura, de O filho de Gabriela, não foi diferente, após afilhar Horácio, passou a cuidar e destinar o melhor para o garoto, em respeito à empregada. Já Alice, de Um Especialista, aprendera com a mãe a não confiar em homens, quem dera se Clara tivesse ouvido a história de sua mãe, que caiu nas lábias de um rapaz tão malandro quanto Cassi. Ainda entre mães e filhas, temos Mlle. Irene e sua mãe de Mme. Barbosa, do conto Miss Edith e seu tio, que caçavam homens endinheirados.

 

Envolvendo interesses financeiros, temos ainda Lola, a cinquentona “conservada” de Um e Outro, e Laura, a patroa de Gabriela, que casara-se apenas por ambição e conveniência. Enquanto Alice vendia seu corpo por sobrevivência, Lola escolhia seus affaires por mera luxúria e vaidade. Já outras vendiam esforços domésticos, como Angélica, de Miss Edith e seu tio, e a Gabriela, empregada de Dona Laura. Ambas eram o braço direito de suas patroas, ainda que respeitadas, possuíam um espaço reservado próximo ao fogão.

 

Há também a Cora, “a linda e deslumbrante Cora” de A Nova Califórnia, meiga e educada como a Miss Edith, que enganara quase todos com sua educação polida na terra da rainha. A superestimação da Senhora Barbosa, ou melhor, madame, com seus inquilinos ingleses contagiou os moradores, que não ousavam comentar muito sobre Miss Edith e seu suposto tio. E assim como Edith, Lola possuía uma certa “lascividade” tão profanada pela sociedade.

 

Lima Barreto não foge dos estereótipos ainda hoje convincentes, denunciando o ontem e refletindo no hoje. A mulher negra, sem muita perspectiva, vista com corpo, mas sem alma. A lascívia feminina tão pecaminosa e suja, assim como a traição encarada de forma totalmente diferente com o sexo oposto. A figura materna e sua responsabilidade com filhos e o lar. O interesse de algumas mulheres em possuir um lugar financeiramente confortável, sendo o casamento o único caminho para tal. 

 

Algumas de suas personagens revelam características de uma mulher tentando florescer numa sociedade patriarcal fortemente ativa, outras demonstram a fragilidade e ingenuidade, vista como legítima das mulheres. 

 

Protagonistas, antagonistas, coadjuvantes e figurantes de uma extensa ficção barretiana meramente escrita. Aquelas são mães e filhas, mulheres solteiras, independentes, sofredoras, vaidosas, ingênuas, interesseiras, corajosas, mas, acima de tudo, são as mulheres feitas por Lima Barreto.


Fernanda Maitê, estudante de Letras, mas não uma devoradora de livros, tem 20 anos, mora numa cidade pacata até o extremo, no norte de Santa Catarina.

Onde comprar livros de Lima Barreto:

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