A Paixão da Nova Eva (Angela Carter): ficção científica, distopia e feminismo

Angela Carter (1940-1992) foi um escritora inglesa conhecida por seus temas profundos que relacionam ficção científica e feminismo. Outros temas, como uma revisitação aos contos infantis, também fazem parte de sua obra. O livro A Paixão da Nova Eva foi publicado em 1977 e aborda o tema da transexualidade em um futuro apocalíptico.

Capa de uma edição em inglês

Evelyn é a personagem principal do romance A Paixão da Nova Eva. Em um país em que tudo está literalmente acabando, ele, um homem que nasceu na Inglaterra, mas está nos EUA, caminhando por ruas destruídas, sujas e infestadas de ratos, se apaixona por uma mulher que possui, para ele, como homem branco, heterossexual e machista, todos os esterótipos de beleza e sensualidade.

Durante o romance que ele vive com a mulher, o leitor pode imaginar que está diante de uma história erótica, porém, a narrativa vai tomando formas inesperadas e acontecimentos que beiram o surrealismo são adicionados à história. De uma paixão, o relacionamento de Evelyn com Leilah transforma-se em algo totalmente tóxico e abusivo e culmina em uma decisão absurda, mas tão comum partindo de um homem, que abandona com tranquilidade uma mulher. A partir desse abandono, é que a vida de Evelyn começa realmente a mudar, pois a sua ida para o deserto – com o intuito de descansar – é totalmente modificada. (Revelar essa parte do enredo não é spoiler, pois isso é apenas algumas informações sobre o começo da obra)

Difícil escrever uma resenha sobre um livro com ações tão intensas, pois a linguagem é simples, rápida e TANTA coisa acontece na obra, que deixa qualquer leitor um pouco atordoado. E ISSO É MUITO MARAVILHOSO.

A Paixão da Nova Eva é um livro, então,  que provoca o leitor por trazer uma realidade muito diferente, mas com verdades embutidas com significado nas atitudes de todos os personagens. Além de Evelyn e Leilah, há uma médica nada convencional que se coloca como uma deusa; há um poeta que deseja matar transexuais; há mulheres guerreiras estilo o filme Mad Max; há uma atriz de cinema chamada Tristessa e principalmente, a narrativa converge para uma reflexão muito significativa para os dias atuais.

A violência – de todos os tipos – sexual, física, moral, social – aparece em toda obra e a abordagem sobre transexualidade é o que mais há para se admirar na obra que, escrita nos anos 70, é tão atual – e continuará assim por muito tempo.

O título do livro é realmente uma menção à Eva da Bíblia, a mulher que nasceu da costela de Adão e que, por comer a maça, levou toda a humanidade ao pecado. Essa nova Eva de Angela Carter aparece de um jeito muito mais plausível, mesmo com uma história tão cheia de elementos irreais e também provoca até nos leitores mais descontruídos um choque tão maravilhoso como todo bom livro provoca.

Assista ao vídeo:

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Francine Ramos

Criou o Livro&Café em 2011, é professora de Língua Portuguesa, adora ler e trabalhar com mediação de leitura. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

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