O Jardim Secreto: uma chave é desenterrada e uma porta, aberta

Um homem infeliz, inconformado pela morte da esposa e distante do filho. Um menino perturbado pelas ideias de morte prematura, hipocondríaco, instável, triste pela distância do pai e pela ausência da mãe que nem chegou a conhecer. Uma menina nascida na Índia que perde os pais de repente, esquecida numa enorme casa devastada pela epidemia de cólera e que vai morar na Inglaterra com um tio que até então nem sabia que existia.

Três solidões que se encontram. Três tristezas que se deixam transformar pelo renascimento de um jardim. Mary Lennox, Colin Craven, Archibald Craven. Um jardim que trás de volta três vidas.

Escrito em 1911 por Frances Hodgson Burnett, O Jardim Secreto teve adaptações para teatro e cinema. Publicado no Brasil pela editora Salamandra, foi traduzido por Ana Maria Machado.  Considerado um livro infanto-juvenil, a história é capaz de tocar leitores de todas as idades.

Não é uma história fantástica. Mas marca a presença de algo mágico na narrativa.  Os personagens não vão longe ou se perdem. As transformações acontecem muito perto, no momento que é achada a chave que abre a porta do misterioso jardim abandonado.

Descobrir a porta escondida atrás de uma cortina de hera, desenterrar a chave que foi escondida há dez anos, entrar no jardim. Reconhecer nele o que está vivo e morto. Abrir clareirinhas, arrancar o mato, plantar novas flores. Paciência, tempo, dias de sol e de chuva. E assim, as cores voltam ao jardim, pássaros constroem ninhos, pessoas percebem que estão vivas.

“(…) mesmo achando estranho, havia minutos – às vezes até meias horas – em que, sem saber por quê, aquela carga negra parecia se aliviar outra vez, e ele sabia que estava vivo e não morto. Devagar, muito devagar, e sem saber por quê, ele estava “revivendo” junto com o jardim.”

Testemunhar o movimento das pétalas de uma flor que desabrocha. Acompanhar o crescimento de uma planta. Ver pássaros construindo ninhos. É mágico observar e perceber todos esses movimentos. E para quem nunca pôde ver nada disso, o livro consegue descrever a sensação por meio de uma linguagem clara e pura.

“ ―Eu acho que não vou querer que fique parecendo um jardim de jardineiro, daqueles todos podadinhos, e arrumadinhos, cê quer? Acho melhor assim, com essas plantas meio selvagens se esticando e se agarrando umas com as outras.

­―Arrumadinho, não ― concordou Mary. ―Se estivesse arrumadinho nem ia parecer um jardim secreto…”

Mary Lennox nasceu na Índia. Acreditava na magia, sempre ouviu sobre ela nas histórias que a aia contava. E acreditava que o jardim, a recuperação do primo e as mudanças ao redor eram magia pura.

Com palavras simples e escrita cuidadosa, O Jardim Secreto traduz de forma sincera os personagens, suas sensações e seus encantamentos. Fala da capacidade de recuperação e renovação; da importância de deixar vir a primavera, podar pensamentos, deixar crescer sentimentos e cultivar relações.

 “Uma das novas coisas que as pessoas começaram a descobrir no século passado foi que os pensamentos – simplesmente, os pensamentos – são tão poderosos como as pilhas elétricas e podem ser tão bons para as pessoas como a luz do sol, ou tão maus como o veneno. Deixar um pensamento triste ou ruim entrar na cabeça e tomar conta dela é tão perigoso (…) E, se depois que entrar, se deixar que ela fique, pode não sair nunca mais.”

Onde comprar O Jardim Secreto (Frances Hodgson Burnett):

Amazon
Livraria Cultura



Andressa Alves

Jornalista. Paulista de sotaques variados. Lê para encontrar, escreve para tentar entender. Coleciona músicas, poesias, textos e fragmentos. Vai se perdendo e se buscando nas palavras.

No Comments Yet

Leave a Reply

Your email address will not be published.