Leia Conceição Evaristo para ver

Eu li 3 livros de Conceição Evaristo. Comecei por Insubmissas lágrimas de mulheres”. depois li “Olhos d’água” e E terminei com a leitura do livro “Histórias de leves enganos e parecenças”.

Talvez, por conta da ordem das minhas descobertas, acabei gostando mais desse último, porém, acredito que só percebi toda a dimensão da obra por conta das leituras anteriores, então é preciso traçar todo o caminho.

No livro Insubmissas lágrimas de mulheres (publicado em 2011), o leitor irá encontrar contos sobre a vida de diversas mulheres que, mesmo em suas pluralidades, possuem uma história difícil para contar, seja por algo que aconteceu dentro de casa, na família, com amigos; ou na rua, na sociedade, no mundo todo que julga a mulher em todas as esferas.

Essas mulheres, então relataram pequenos momentos de uma fase de suas vidas para Conceição Evaristo que, usando a liberdade literária, reconta essas histórias, imagino que acrescentando mais, em certos momentos, e lapidando um pouco, em outros.

Olhos d´água, publicado em 2014, também possui o tema da mulher negra na periferia, porém, em alguns contos a autora explora também o universo do homem negro. Assim, o livro é um registro muito importante para toda a cultura negra e, principalmente, para a sociedade que insiste em dizer que racismo não existe. Se em um livro, Conceição explora a força das lágrimas insubmissas das mulheres, neste livro há um outro elemento, que permite o leitor enxerga não somente a água em forma de lágrimas, mas como um rio que vai se formando e ficando forte, mesmo com as pedras e as curvas tortuosas.

Histórias de leves enganos e parecenças foi publicado em 2016 e o livro consegue condensar todo o poder literário de Conceição Evaristo que, em contos curtíssimos, transbordam sabedoria, serenidade e a incrível capacidade do não-julgamento. As mulheres da autora podem ser muito parecidas umas com as outras, porém, são totalmente diferentes se compararmos com as mulheres inventadas pelos escritores homens que, dentro de seu lugar patriarcal, é comum relatar mulheres submissas, sem vozes ou escolhas, e sem uma vida interior que realmente faça sentido.

A água

O que há de mais bonito em “Histórias de leves enganos…” é a presença do Realismo Mágico e também do quanto o elemento água aparece com mais força neste livro, apesar de não se revelar no título, como nos outros livros.

Há uma mulher que não abria os braços porque flores voavam de suas axilas. Uma grota tão funda que nela é possível ouvir o choro de pessoas que lá foram atiradas ou se atiraram. Uma mulher que veio da África e depois descobriu que o seu cabelo era feito de fios de ouro…

É pela água que Virginia Woolf, por exemplo, cria personagens complexos, como no livro As Ondas, que consegue demonstrar dimensões muito profundas sobre as relações pessoais. É pela água que também a autora faz o leitor pensar no elemento da morte, como em seu próprio suicídio. Não apenas Virginia Woolf parece ter visto o poder da água que, em um copo dá a vida, mas que se acontecer um dilúvio, pode causar a morte. Outro exemplo é Frida Kahlo com o seu quadro “O que a água me deu”, de 1938, que traz imagens que podem ser interpretadas como vida, morte, autoconhecimento, sexualidade, dor, transformação e força:

Na obra de Conceição Evaristo, a água se faz presente de inúmeras formas. No livro “Insubmissas”, podemos imaginar que as lágrimas das mulheres dos diversos contos surgiram em seus momentos de maior angústia, mas que mesmo assim, elas não sucumbiram à inanição e agiram, cada uma de sua forma; e também da forma possível. No livro “Olhos d´água”, além da autora identificar mais uma cor possível para os olhos, mostra também a lágrima que vem com um choro silenciado, de uma pessoa toda silenciada, mas que lá dentro parece que há uma tormenta prestes a explodir.

Assim, quando o leitor chegar no livro “Histórias de leves enganos” a água que faz tão bem; pode se transformar, literalmente, no maior poder de uma mulher – que cura e também destrói. É pela mulher que a natureza adquire sua força e vice-versa, assim é o que Conceição Evaristo nos mostra em suas pequenas pinceladas de realismo mágico.

Leia Conceição Evaristo para ver

No último conto, chamado Sabela, é possível enxergar uma condensação da obra de Conceição Evaristo, porque a história é sobre uma senhora que tem o poder de controlar as águas e que, por conta desse poder passado de geração a geração, saberemos também que a sua ancestral fez parte das mulheres que foram queimadas na fogueira por serem consideradas bruxas. Então, essa mulher, que sabe quando a chuva vai começar, avisa o prefeito da cidade que um dilúvio está para começar. Das pessoas que enfrentam a terrível força da natureza e sobrevivem, é que vamos conhecer a história do dia em que uma mulher controlou as águas.  Ela deu vida, ela deu morte. Ela deu coragem, comiseração e poder.

Se me perguntarem porque é preciso ler Conceição Evaristo, vou tomar para mim o final do conto “Grota funda”, quando um homem decide encarar um abismo muito misterioso, no qual é possível ouvir coisas que pensamos não existir, coisas de dor, sofrimento, mas também um tipo de calmaria que vem com a sabedoria ou, no mínimo, com a ação de se colocar no lugar do outro. O homem desce nas profundezas do abismo e, quando volta, “com um olhar vazio e modo distanciado do mundo, apenas responde: desça lá para ver. Desça lá para ver. Desça lá para ver.”  Leia Conceição Evaristo para ver.

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Onde comprar os livros de Conceição Evaristo:

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Livraria Cultura
Livraria Saraiva


Francine Ramos

Criou o Livro&Café em 2011, é professora de Língua Portuguesa, adora ler e trabalhar com mediação de leitura. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

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“Livros, o precioso sangue dos espíritos imortais” Virginia Woolf