Uma sociedade (Virginia Woolf): para descobrir como o mundo é

“Uma sociedade” é um conto de Virginia Woolf escrito em 1920 e que teve como motivação uma coletânea de ensaios de Arnold Bennet, sobre a sociedade contemporânea e também sobre as mulheres. O escritor afirmou que “o homem é superior à mulher, quer do ponto de vista intelectual, quer do ponto de vista da criação artística“. Não somente Woolf, mas também um amigo dele chamado Desmond McCarthy, publicaram em uma revista da época suas opiniões sobre o tamanho absurdo registrado por Bennet. Essas opiniões estão registradas no livro “Profissões para mulheres e outros artigos feministas”, que explora o lado crítico de Virginia Woolf para a literatura, para a sociedade e também para os homens, que, assim como o conto “Uma sociedade” foi publicado em 1920.

Edição (esgotada) da editora Cosac Naify com todos os contos de Virginia Woolf

Imaginamos, então, que o assunto estava causando um grande desconforto em Virginia Woolf e que bom, pois, a partir da provocaçao de Bennet temos um dos contos mais feministas da autora, em que ela explora um grupo de mulheres que se juntam com o objetivo de descobrir como é o mundo, em seu sentido mais amplo, para, somente assim, ter um filho. “Antes de trazermos outra criança ao mundo, temos de nos jurar que vamos descobrir como o mundo é.”

As mulheres do conto estão reunidas em uma sala, conversando sobre coisas comuns. Uma delas está muito preocupada, pois, por ser uma grande leitora, não encontra nos livros algo realmente bom. Isso, de uma certa forma, comove as outras mulheres que montam uma “sociedade” para percorrer diversos lugares ocupados por homens para entender mais sobre esse outro sexo.

“Sempre achei que o dever de uma mulher era passar sua juventude tendo filhos. Eu venerava a minha mãe, que teve dez; e mais ainda a minha avó, que teve quinze; minha própria ambição, confesso, era ter vinte. Passamos por todas essas épocas supondo que os homens fossem igualmente industriosos e que suas obras eram de igual mérito. Enquanto criávamos os filhos, eles, supúnhamos, criavam livros e quadors. Povoamos o mundo. E eles o civilizaram. Mas agora que nós sabemos ler, o que nos impede de julgar os resultado? (p. 169)

Interessante que, no início do conto, as próprias mulheres repetem o machismo já enraizado dos homens. “Se um livro é ruim, provavelmente foi escrito por mulheres”, diz uma das personagens, porém, para a sua surpresa, o livro em questão foi escrito por um homem. E, assim, as mulheres vão desconstruindo os jargões que tanto inferiorizam a mulher e, o mais bonito, começam a propor outros jeitos de encontrar a real verdade do mundo. Elas se entitulam uma “sociedade de fazer perguntas”, que nada mais é que mulheres questionadoras sobre os seus lugares no mundo.

A cada reencontro das amigas, histórias sobre como elas enfrentaram situações, até mesmo bizarra em seus ambientes sociais, são contadas com o objetivo de descobrir como são as produções de alguns homens em seus campos de trabalho e também na vida familiar, como um professor, um escritor, um capitão de navio, um juiz etc.

“Oh, Cassandra, por que  você me atormenta? Você não sabe que nossa crença no intelecto do homem é a maior falácia de todas?” (p. 181)

Textos carregados de ironia não são tão comuns no universo woolfiano, pois ela utiliza mais o frasco da sutileza, porém, em “Uma sociedade”, propositalmente, imagino, a ironia é clara e realmente muito divertida, pois lida com a fragilidade do sexo masculino e da sociedade perante as afirmações de homens em relação ao próprio sexo.


O tempo

Outro ingrediente comum na obra de Virginia Woolf é a relação do tempo com o espaço. No conto, o leitor pode achar que o tempo corre no mesmo ritmo das conversas das amigas e também das situações que elas passam, porém, é possível perceber que não é tão simples assim, pois com a chegada da guerra, é como se o leitor e as amigas fosse pegas de surpresa. Fica no ar o questionamento: quanto tempo elas levaram para tomar decisões e enfrentar o mundo machista com suas perguntas? A sensação é que guerras iniciaram e terminaram e as mulheres permaneceram unidas em prol de suas pesquisas.

Quando o conto caminha para o final, o leitor pode pensar que, por fim, essas mulheres compreenderam como o mundo é, mas, se tratando de Virginia Woolf, nada é tão simples, entao, uma revelação tão mais humana e profunda aparece para fechar o conto com muita lucidez.

A contribuição do conto para os nossos dias

Nesta sociedade que não trata a mulher do mesmo modo e que enraizou a ideia de que o homem é superir em muitos aspectos, resta às mulheres acreditar em si mesmas, ocupar os espaços de todas as profissões, produzir literatura e todos os tipos de arte, para assim, propor uma reflexão maior ao mundo, que, com as amarras do patriarcado, muitas vezes não as vê. Foi o que fez Virginia Woolf durante toda a sua vida. Ainda não estamos no mundo ideial, mas tudo começa, então, quando duas mulheres se juntam e conversam sobre a vida que elas têm. Se elas conseguirem transmitir isso para outras mulheres, está feita a sociedade de perguntas e isso pode nos levar muito longe.

Quando Virginia Woolf escreveu esse conto, com certeza outras mulheres também já estavam (cada qual em sua maneira) se organizando para questionar o mundo. Do século XX para esse século XXI quantos questionamentos se tornaram pautas em jornais, revistas, internet e em rodas de conversa? Estamos avançando, estamos avançando!

Veja o vídeo sobre o conto no canal Livro&Café

Onde encontrar o conto “Uma sociedade” (Virginia Woolf):

É uma tarefa difícil, pois o conto está presente em livros esgotados, mas, com muita pesquisa, ainda é possível encontrar com preços mais justos:


Francine Ramos

Criou o Livro&Café em 2011, é professora de Língua Portuguesa, adora ler e trabalhar com mediação de leitura. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

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“Livros, o precioso sangue dos espíritos imortais” Virginia Woolf