Azul e Verde (Virginia Woolf): os fios de uma colcha de retalhos

Azul e Verde é um pequeno conto de Virginia Woolf publicado em 1921 na coletânea “Segunda ou Terça”. Aliás, ele pode abrir muitas discussões a respeito do que é um conto, pois, sem a estrutura tradicional esperada, apenas podemos afirmar que ele é sobre o dia e a noite e nada além disso. Mas, se tratando de Virginia Woolf, é muito além disso também.


Dividido em duas parte, a primeira parte “Verde”, representa o dia. A outra parte, “Azul”, representa a noite. Novamente é esse passar do dia, das horas, que parecem ganhar a atenção da autora. E, como no conto Segunda ou Terça, o embalo da cidade e os seus movimentos sutis conduzem a uma narrativa simples, um olhar curioso sobre um pequeno detalhe, como se fosse um simples aquecimento para algo maior.

Os fios

1ª edição, lançada em 1921 pela Hogarth Press, editora de Virginia e Leonard Woolf

Impossível, então, pensar neste conto sem puxar os fios dos outros contos da autora. E assim, ir atrás das histórias que fazem parte da coletânea Segunda ou Terça. São eles:

Ao ler todos esses contos, então, identificamos que a sua unidade está no contraste. Em alguns, há personagens e outros elementos que nos ajudam a definir um conto. Em outros, é apenas a presença da natureza em uma cidade – dia após dia, noite após noite.

Talvez, fazer a leitura separada deste conto, não seja tão grandioso como ler todos os contos, pelo menos deste período entre 1917 e 1921, pois os fios que puxamos e conectamos uns aos outros são importantes para tecermos uma ideia sobre o processo criativo e a mente de Virginia Woolf.

Porque o cotidiano e seus detalhes parecem tão importantes para a autora? Dificil responder essa pergunta com clareza e segurança, mas, sem dúvidas, o caminho é compreender esses passos e ligá-los aos outros contos e também aos romances que a autora publicou.

Os contrastes e o cotidiano

O romance Noite e Dia foi publicado em 1919 e conta a história a partir de uma sutil passagem de tempo e de uma rotina que, muitas vezes, pode ser percebida como maçante – se olharmos para fora. Mas, quando a autora consegue trazer o leitor para a mente das personagens, tudo se amplifica e ganha mais sentido. Capítulo a capítulo, o romance que conta uma história comum – sobre casamentos e a sociedade burguesa, tem sua camada de modernidade se olharmos para a forma como, pouco a pouco esses personagens se revelam.

Outro exemplo é o romance Mrs. Dalloway, que narra apenas um dia na vida da personagem Clarissa Dalloway, mas a forma como a história é contada, propõe ao leitor reflexões muito profundas sobre a vida e, novamente, a presença do contraste: a vida e a morte; a sabedoria e a loucura.

Junto e Separado

Assim, para aqueles que já se aventuram na obra de Virginia Woolf,  é um presente maravilhoso olhar novamente para os contos e poder fazer essa aproximação com os seus romances. As possíveis ressignificações são valiosas em diversos sentidos e, claro, em diversos contrastes da vida.

Azul e Verde é belo por sua prosa poética, mas tão curto, que deixa o leitor com aquele desejo que precisa de mais. Por outro lado – um outro contraste – ele é tão suficiente em si mesmo, que representa um único dia e como, com as palavras tão bem pensadas, podemos ressignificar um simples cotidiano. O dia que começa e toda a sua beleza. A noite que cobre o dia e também cresce em suas cores e sombras.

Veja o vídeo no canal Livro&Café

O conto “Azul e verde” está presente no livro Contos Completos (Cosac Naify).




Francine Ramos

Criou o Livro&Café em 2011, é professora de Língua Portuguesa, adora ler e trabalhar com mediação de leitura. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

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