O outro (Jorge Luis Borges): um conto sobre ele mesmo

Comecei a ler Borges com lentidão. Procurei ler algumas poesias do autor e depois perguntei aos amigos por onde começar a ler Borges. Respostas das mais diversas recebi, mas decidi ir para um caminho mais simples: ler o único livro dele que tenho em minha estante, oras.

Assim, estou lendo O livro de Areia, uma coletânea de 13 contos lançada em 1975.

Mas, antes de abraçar O livro de Areia, li algumas poesias do autor, presentes no livro “Poesia“.

Quando li as poesias fiquei naquele gostoso estado de contemplação, que é quando a poesia – tão difícil de ser explicada – diz tantas coisas e dá tantos caminhos possíveis. Eu tenho a sensação que a poesia não informa tudo, mas te coloca em um estado de vigília, como se a qualquer momento o entendimento pleno chegasse. Se é um jeito torto de ler poesia, talvez, mas assim me entendo.

Mas sobre o conto “O outro” – isso é uma resenha confusa, eu sei. Quero deixar registrado aqui algumas belezas do conto, que é sobre uma conversa de Borges com ele mesmo:

“Não sei quantos livros você vai escrever, mas sei que são muitos. Escreverá poesias que lhe darão um prazer não compartilhado e contos de caráter fantástico. Dará aulas como seu pai e como tantos outros de nosso sangue” (p. 10)

“Se o senhor foi eu, como explicar que tenha esquecido seu encontro com um senhor de idade que em 1918 lhe teria dito que ele também era Borges?” (p. 12)

“Meio século não passa em vão. Sob nossa conversa de pessoas de leituras misturadas e gostos diversos, compreendi que não podíamos nos entender. Éramos diferentes demais e parecidos demais. Não podíamos nos enganar, o que torna difícil o diálogo” (p. 13)

“Respondi que o sobrenatural, se acontece duas vezes, deixa de ser aterrador.” (p. 14)

“Sim. Quando você chegar à minha idade, terá perdido a vista quase por completo. Verá a cor amarela e sombras e luzes. Não fique preocupado. A cegueira gradual não é uma coisa trágica. É como um lento entardecer de verão.” (p. 14)

Então, até onde sei e sei tão pouco, Borges é isso: um pouco de graça, tragédia e domínio. Uma profundidade que vem com o cotidiano, seja ele fantástico ou não. Aliás, me parece que a tal fantasia em Borges não pretende trazer dragões e magias, mas sim os absurdos, os sonhos, as nossas utopias que, com um olhar mais atento, pode ser sim muito fantástica.

Com certeza há outras coisas. Vou descobrindo e registrando por aqui.

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Francine Ramos

Criou o Livro&Café em 2011, é professora de Língua Portuguesa, adora ler e trabalhar com mediação de leitura. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

1 Comment
  1. “O Outro” me lembrou muito De volta para o futuro quando o Biff adolescente se encontra com o Biff idoso.
    Esses trechos me deixaram extremamente curiosa para ler O Outro e quem sabe todo o livro. Há tempos que não me delicio em algum livro de conto.

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