Precisamos conversar sobre: “Ian McEwan ajuda filho em redação sobre sua própria obra e tira apenas C”

Saiu em diversos portais de notícias que “Ian McEwan ajuda filho em redação sobre sua própria obra e tira apenas C”. E nós precisamos conversar sobre isso.

A literatura é a arte das palavras. Ouvi isso muitas vezes de meus professores e li outras dezenas de vezes em livros. Concordo plenamente e sei da importância de se admirar a arte. Também é importante tentar compreendê-la, não para chegar a respostas complexas, mas para curtir o caminho. Há também aquela frase tão clichê que diz que o que importa mesmo é o caminho. E isso se aplica à literatura. Seja você um simples leitor, um leitor crítico ou um crítico de profissão, atentar-se ao caminho talvez seja o melhor a se fazer.

Eu quero dizer que talvez não importa conseguir explicar como uma palestra se a obra do autor é sobre guerras, sobre lutas, sobre a humanidade, sobre se ele traz um panorama do mundo e das profundezas da mente humana e traça um paralelo contemporâneo com as questões mais recentes da humanidade. Saber essas coisas é apenas conhecer uma informação, um dado que pode estar anotado na Wikipédia. Saber desses dados, ter acesso a isso, faz da gente um usuário real da arte das palavras?

Acredito que não. A arte – e todo o seu sentido provocador, serve para nos tirar de um lugar e levarmos para outro. É sem controle e sem destino certo. É pessoal e intransferível, portanto, se olharmos com mais atenção, podemos perceber que cursos literários – seja na escola, na faculdade, ou cursos livres, acabam transformando o acesso à arte em apenas conhecer dados e explicá-los, para, ao final, o aprendiz sair de lá com ares presunçosos como se soubesse de alguma coisa. Ele sabe, claro que sabe, mas ele realmente tocou a arte?

O pedantismo literário

A crítica literária é chata (e eu posso estar neste grupo). A literatura é feita de muita presunção (eu posso estar neste grupo). Quando a gente lê um livro é melhor sair dessa linha de ter que entender e explicar tudo. Porque isso é tão vasto e dá margem a um possível distanciamento da arte que, pelas deusas e deuses, vamos evitar, por favor! por amor!

Já dizia Virginia Woolf: “É o nosso gosto, o nervo sensorial que através de nós transmite choques, o que ainda assim mais nos ilumina; é pelo sentir que aprendemos.”

Obrigado, Ian!

Leia a notícia e volte

Quando li a notícia sobre Ian McEwan, dei boas risadas. Achei realmente engraçado e me deu até uma certa paz, porque, de verdade, se tem algo que morro de preguiça é da presunção disfarçada. O mundo literário, amigos, está cheio de gente correndo atrás da melhor metáfora, da melhor comparação, da melhor intertextualidade para explicar o livro do seu autor favorito ou do best-seller do momento. Mas e o caminho? O que você sentiu? O que o livro te transformou?

Ian McEwan se sente desconfiado com a obrigatoriedade da leitura. Também desconfio muito dela. Se ele, autor da própria obra, sabe o que ele queria passar com o seu livro, porque vem alguém do outro lado para colocá-la em um padrão e só aceitar a verdade desse padrão? Seremos capazes de formar leitores além desses padrões? Eu não tenho respostas, mas acredito que ainda precisamos conversar muito mais sobre isso.

Aqui no Livro&Café tem resenha do livro Amor sem fim, o provocador da discórdia. Será que consegui atingir as expectativas do autor ou do professor de seu filho? Provavelmente não, mas lembro que foi uma leitura muito enriquecedora, tanto para minha bagagem como leitora e também como minha outra bagagem, aquela que, um dia, talvez, quem sabe, me torne escritora. É esse estilão do Ian que gosto muito.

Se você não conhece o autor, veja esse vídeo:



Francine Ramos

Criou o Livro&Café em 2011, é professora de Língua Portuguesa, adora ler e trabalhar com mediação de leitura. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

2 Comments
  1. AAAAAAAA! Que maravilhoso, Fran. Arte é sobre ler a própria verdade na verdade do outro e refletir através de cada entrelinha ali deixada – o que acaba sempre sendo relativo. Essa falta de busca ao aprofundar, ao caçar dos detalhamentos mais voltados às emoções e sensibilidades é uma tragédia que ainda persegue a nossa sociedade, de fato. Esquecem que a principal inteligência não é aquela que grava uma fórmula, mas aquela capaz de criar algo novo e de evoluir lembrando que evolução é gerar outras tantas. Que lindeza de alerta, de postagem e de coração que você nos trouxe e traz!

    http://www.semquases.com

    1. Obrigada!! 🙂
      Inteligência é algo muito subjetivo mesmo para existir testes capazes de compreendê-la. Estamos distantes de tanta coisa ainda! rs
      Bjo!!!

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