Estar no fundo do poço seco

No livro Rútilos (Hilda Hilst) há um personagem que gosta de ficar no fundo do poço seco. Entre tantas analogias que podemos fazer, estou aqui pensando que todos nós já estivemos – ou vamos estar um dia, no fundo do poço seco. Um pouco assustador isso de estar num poço, mais ainda se ele for seco. Mas no caso do personagem de Hilda Hilst, ele gosta do poço seco. Depois de um dia de trabalho – ele é adestrador de ratos, ele vai para o poço seco. Quando está trabalhando pensa: ah, quero chegar em casa e ir para o fundo do poço seco.

Com que frequência visitamos esse fundo do poço seco de nossas vidas?

Quando li o conto O grande-pequeno Jazu eu estava há algumas semanas no fundo do meu poço seco. Por lá fiquei pensando e revisitando tantas coisas que não sei ainda organizar tudo em palavras, mas tudo que senti nessa dolorosa visita me dá agora uma sensação de que está tudo bem, apesar das feridas que ainda não cicatrizaram.

Ao ler Hilda Hilst a gente precisa estar aberto para todo o estranhamento e provocação que ela vai nos dar. Algumas vezes vai acontecer uma sequência de tapas na cara e socos e pontapés, mas – um pouco parecido e além de um Clube de Luta, o leitor irá voltar e refazer todo o caminho.

Estar no fundo do poço seco é um querer estar.

Fico me perguntado se reconheci o fundo do meu poço seco porque eu estava lendo Hilda Hilst, ou, independe da leitura, eu descobriria sua existência – qual seria o seu nome?

Em Rútilos conheci um adestrador de ratos, um menino que queria ser soldado, um homem que vendeu a própria mãe, outro que quis construir uma casa dentro de si, um professor de Matemática que precisava lidar com medos do passado, um eu-lírico falando sobre esboços, que tudo, por mais completo que pareça ainda é um esboço.

Teve também apenas alguns lampejos, porque muitas vezes o livro permanece obscuro em alguns pontos, esquecemos a ordem das coisas, nomes de personagens e como tudo começou, mas há algo que permanece, uma sensação de que – por alguns segundo – conseguimos atingir algo mágico, como Borges buscava em seus contos. A palavra, um som perfeito, algo que realmente (re)signifique e ilumine.

Por fim, estar no fundo do poço seco é completar o processo e sair de lá. Reconhecer a sua existência é caminho. Eu vejo o fundo do meu poço seco.


Francine Ramos

Criou o Livro&Café em 2011, é professora de Língua Portuguesa, adora ler e trabalhar com mediação de leitura. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

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