Viajar não é botar os pés para fora de casa

O que é falar sobre viagens? Dizer sobre os lugares que visitou? Comentar sobre quantos carimbos possui no passaporte? Mostrar sua coleção de lembrancinhas?

É muito além, mas será que estamos todos preparado para falar do que realmente acontece em uma viagem?

Eu li um livro chamado “Viagem sentimental ao Japão“, da escritora brasileira Paula Bajer Fernandes. Na história, havia uma personagem que adorava o Japão e foi trabalhar numa agência de viagens. No decorrer da história, descobri que ela, na verdade, nunca tinha ido ao Japão ou a qualquer outro lugar, mas a sua habilidade em convencer as pessoas sobre os lugares que elas deveriam viajar era impressionante. E há um outro fator para essa história ser realmente interessante: a personagem estava em uma grande viagem pessoal.

Quando a gente pensa em viagem – em viajar? É possível criar definições para isso? Viagem – com g – é substantivo. Viajar, que se escreve com “j” é verbo. E nessa maravilha que é a nossa língua, viagem pode ser um adjetivo. Sabe quando você encontra aquele conhecido e diz: “ah, ele é uma viagem!” Assim, essa palavra pode vir carregada de qualquer coisa ou ação.

Então, nem sempre viajar significa viagem. Nem sempre uma viagem significa viajar. Ok. Talvez isso possa ser um pouco confuso… Vou usar um trecho de um dos melhores livros que li nada vida, da escritora Hilda Hilst que, inclusive neste mês, será homenageada na FLIP, a festa Literária Internacional de Paraty. Em seu livro “A Obscena Senhora D.” a personagem conhecida apenas como Senhora D. está em sua casa revisitando lugares obscuros de si mesma e em determinado momento, o leitor irá se deparar com a seguinte frase:

“conheci uma criança que deu dois passos e contornou o mundo, um velho que esquadrinhou o mundo mas quando voltou à casa viu que não tinha saído do primeiro degrau de sua escada”

O que você prefere: ser uma criança que viaja mesmo dando apenas dois passos (eu sempre me sinto essa criança quando estou lendo meus livros, experimente também!) ou ser o velho que viaja para todos os cantos do mundo, mas quando retorna é como se não tivesse acontecido nada… A resposta pode ser simples, mas colocar em prática não é tão fácil assim. Eu adoro essa metáfora da criança livre e o velho preso. É triste, mas me agrada profundamente, porque acredito que quando pensamos em viagens com um pouco mais de atenção, fica evidente que não é botar os pés para fora de casa, é muito além!

O mover-se, seja de carro, ônibus, a pé, avião, moto ou qualquer outro meio que mova o seu corpo para outro espaço não significa modificar algo aí dentro. E ainda temos a viagem por meios lícitos e ilícitos… Mas todas com o mesmo princípio: uma viagem é visitar e conhecer. E não podemos esquecer jamais que o melhor lugar para visitar e conhecer é dentro de nós mesmos.

Para viajar é preciso coragem e disposição, no mínimo. São dois itens principais para alcançarmos cumes mais altos. E aí? Qual foi a sua grande viagem hoje?


Esta crônica faz parte do programa “Sunset”, que acontece todos os domingos, a partir das 20h na Rádio Ipanema.

Escute o áudio da crônica:

Foto: Oh my India


Francine Ramos

Criou o Livro&Café em 2011, é professora de Língua Portuguesa, adora ler e trabalhar com mediação de leitura. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

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