A assombração da Casa da Colina (Shirley Jackson): sobre a construção da insanidade, da loucura

Nenhum organismo vivo pode existir muito tempo com sanidade sob condições de realidade absoluta; até cotovias e gafanhotos, supõem alguns, sonham. A Casa da Colina, desprovida de sanidade, se erguia solitária contra os montes, aprisionando as trevas em seu interior; estava desse jeito havia oitenta anos e talvez continuasse por mais oitenta. Lá dentro, paredes continuavam de pé, tijolos se juntavam com perfeição, assoalhos estavam firmes e portas estavam sensatamente fechadas; o silêncio se escorava com equilíbrio na madeira e nas pedras da Casa da Colina, e o que entrasse ali, entrava sozinho. (p. 07)


Shirley Jackson nasceu em 1916, considerada a rainha do terror, uma das autoras americanas mais importantes do século XX e é apontada como influência para nomes como Stephen King, Neil Gaiman e Donna Tartt. A assombração da Casa da Colina, seu primeiro romance, ganhou a primeira edição brasileira este ano pela editora Suma, com tradução de Débora Landsberd.

Com um enredo clássico, o livro nos apresenta John Montangue, doutor em Filosofia, com formação em Antropologia e estudioso da mediunidade, que está à procura de assistentes para o auxiliar em uma temporada de pesquisa em uma casa considerada mal assombrada, cuja história de construção, bem como a daqueles que a haviam habitado, era repleta de mistérios. Para tanto, é importante que esses assistentes tivessem algum tipo de contato com o “obscuro”, algum tipo de sensibilidade; e, checando os registros das sociedades mediúnicas, arquivos de jornais sensacionalistas e relatórios parapsicológicos, ele envia cartas convidando cerca de dez pessoas para “observar e explorar as várias histórias desagradáveis que circulavam sobre a casa durante boa parte dos oitenta anos de sua existência”.

Assim, Dr Montangue recebe a resposta de duas mulheres de sua lista. Eleanor Vence, uma espécie de Amelie Poulain mais triste, que, por causa de sua vida tediosa e solitária, vive boa parte do tempo em um mundo de fantasia e se agarra à crença de que algo, algum dia, aconteceria, o que a leva a aceitar o convite sem muitos questionamentos. Já Theodora, assim mesmo, apenas Theodora, uma mulher empolgada, vibrante, curiosa e dotada de certa habilidade telepática, que aceita o convite como forma de fugir – ou dar um tempo – de um problema com uma amiga. O grupo se torna completo – ao menos por um período – com a chegada de Luke Sanderson, herdeiro da mansão e homem de caráter duvidoso, que se junta a eles sob a condição de que tal pesquisa só poderia acontecer com a presença de um membro da família.

Mais do que um livro sobre o sobrenatural, A assombração da Casa da Colina é um livro sobre a construção da insanidade, da loucura; ele diz mais sobre como aqueles personagens reagem às situações que estão vivendo, sobre como eles enfrentam o medo e aquilo que não entendem, do que a respeito do que acontece durante a noite, o que causa tal medo. O terror vem dos diálogos primorosos, da falsa tranquilidade com que aquelas pessoas tratam os acontecimentos; ele vem da familiaridade do fazer piada com aquilo que te atormenta, do riso que se confunde com o pavor.

Apesar de alguns elementos usados já serem considerados clichês – afinal, trata-se de um livro de 1959 -, como quartos ensanguentados, vozes do além e gêmeas, e da demora e sutilezas das questões fantásticas, a história de Shirley Jackson me conquistou por não entregar ao leitor respostas para tudo, por não nos mostrar o que, de fato, aconteceu, por nos deixar com as mesmas dúvidas de seus personagens, por focar no psicológico, na ambiguidade, na construção, mesmo nos pequenos detalhes, de um ambiente que é inóspito e opressivo, e na criação de uma casa que gosta de entradas triunfais e que parece ser tão complexa e atuante quanto aqueles que a estudam.

Essa casa, que parecia ter se formado sozinha, voando ao mesmo tempo até formar seu padrão potente sob as mãos dos construtores, se ajustando à própria construção de traços e ângulos, levantava sua enorme cabeça para o céu sem fazer concessões à humanidade. Era uma casa sem bondade, jamais feita para ser habitada, não era o lugar adequado a pessoas ou ao amor ou à esperança. O exorcismo não consegue mudar o semblante de uma casa; a Casa da Colina continuaria igual até ser destruída. (p. 36)  

Tirando uma breve descrição física do Dr Montague, as únicas coisas que sabemos sobre aquelas pessoas são sobre o que elas falam, as piadas que fazem, a forma como se comportam e o que Eleanor pensa sobre eles; tais personagens são pessoas feitas de camadas, de frases – aparentemente – sem sentido, de contradições, de sentimentos, de fantasias, de olhares e coisas não ditas. Shirley Jackson te apresenta àquelas pessoas, te faz amiga delas, te mostra suas qualidades e defeitos antes mesmo de te contar sobre como a casa potencializa algumas dessas características e como ela modifica os relacionamentos.

Provavelmente, quem já tem o costume de ler livros de terror não ache A Assombração da Casa da Colina um romance assim tão assustador, nem fique tão impactado com os mistérios que rodeiam aquele lugar. Mas, como uma pessoa nada acostumada com o gênero e como alguém facilmente impressionável, o livro me fez perder o sono, tanto por medo, por ficar horas e horas pensando em como agiria naquelas mesmas situações, quanto por precisar formular teorias para o que havia acontecido; e me fez colocar Sempre vivemos no castelo, último dos seis romances escritos pela autora e também publicado pela Suma (Grupo Companhia das Letras), na lista de próximas compras e próximas leituras.

Leia a resenha de Sempre vivemos no castelo.

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Vanessa Pessoa

Vanessa é uma feminista introvertida, estuda letras na UFPR e coleciona uma porção de figos maduros que apodreceram aos seus pés. Gosta de livros riscados, lombadas quebradas, café sem açúcar e não sabe muito bem como escrever sobre ela mesma.

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