É fácil falar de relacionamento abusivo quando se está de fora

Semana passada, eu li um livro chamado “Castelo de Vidro”, de uma jornalista e escritora americana chamada Jeannette Walls. A história que ela conta é sobre a sua própria vida, da sua infância até o início da vida adulta, quando conseguiu sair de casa (e do relacionamento abusivo da própria família) para correr atrás de seus desejos. A família de Jeannette era composta por mais dois irmãos, além do pai e da mãe. E farei um recorte nesta história para comentar apenas do pai, um homem violento, alcoólatra e abusivo. Na história, ele coloca a sua família em risco em diversas situações – muitas beirando o absurdo, e sem nunca perceber a crueldade de suas atitudes.

Em muitos momentos fiquei incomodada com a apatia de Jeannette e da mãe, que não conseguiam reagir contra a violência física e psicológica que o pai cometia quase que diariamente. E fiquei pensando muito nessa questão da invisibilidade do relacionamento abusivo. Ele está lá, porém, por também ser um jogo de palavras e ações, é difícil perceber quando ele acontece, pois de repente, a pessoa está envolvida em situações absurdas e não percebe, mas sofre, se sente culpada e tenta de qualquer maneira continuar agradando o abusador. No livro “O Castelo de Vidro” o abuso chega a ser tão forte que o pai envolve a filha em uma situação de prostituição e ela concorda, apesar de achar estranho.

Nas histórias de ficção, o relacionamento abusivo também está presente e, como na vida real, muitas vezes é interpretada como uma situação romântica. No livro Dom Casmurro, Bentinho que é totalmente obcecado por Capitu passa a história todo comentando sobre a traição dela, mas sabemos, de fato, se houve a traição? Não… tudo está na cabeça doentia do narrador da história e muitos interpretam o livro de Machado de Assis como uma história de amor, mas, na verdade, é uma história sobre relacionamento abusivo. Há outros livros, considerados clássicos, em que o relacionamento abusivo é colocado como algo romântico e bonito. Portanto, todo cuidado é pouco, pois não é apenas na ficção que isso acontece, na vida real também.

É possível, do lado de fora, falar sobre o relacionamento abusivo. Porém, é muito complicado estar nele e conseguir enxergá-lo. Porque o abusador usa do poder das palavras e constrói situações de persuasão muito fortes. Então, para combater esse mal que está tão presente nos relacionamentos, é preciso sempre falar sobre isso. Não há fórmulas mágicas. Não há como prevê-lo. Com boas intenções, caímos em armadilhas que machucam na alma. Entretanto, é o amor próprio que fortalece e é capaz de mudar o olhar. Antes de amar o outro – que pode ser um abusador; em primeiro lugar o amor sobre si mesma. Não é simples, a culpa jamais é da vítima. E vivemos em uma sociedade que ainda vê a violência como uma questão particular, porém é publica e devemos denunciar. Assim, falar sobre relacionamento abusivo em sua casa, nas redes sociais, com amigos e com a pessoa que vc se relaciona é o melhor o caminho. Sempre.


 

Crônica lida no programa “Sunset”, da Rádio Ipanema, Sorocaba – SP, agosto de 2018.

Foto: M de Mulher


Francine Ramos

Criou o Livro&Café em 2011, é professora de Língua Portuguesa, adora ler e trabalhar com mediação de leitura. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

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