A mentira mora na dificuldade de dizer a verdade sobre si mesmo

É difícil falar sobre mentira. Pensei muito antes de tecer essas palavras que agora você lê. Então, depois de dias e dias – no trânsito, na fila do supermercado, no café da manhã olhando pela janela pensando na mentira, decidi que o melhor jeito de falar abordar esse assunto é falando sobre a verdade! Sim, a verdade… O que é a verdade? Onde ela mora? Não é tudo uma questão de ponto de vista? Virginia Woolf, em um de seus ensaios, escreveu que você só pode falar sobre alguma pessoa, se você conseguir falar a verdade sobre si mesmo… E talvez seja esse o caminho. O quanto conseguimos todos os dias dizer todas as verdades sobre nós mesmos?

Um investigador diria que a verdade mora nos detalhes. Um poeta, diria que mora nos olhos das pessoas. O político diz que ele é a própria verdade. Mas, todos nós, em nossas casas antes de dormir e refletindo sobre a nossa existência? Falamos a verdade com nós mesmos?

Entre tantos clichês sobre verdades e mentiras, podemos afirmar que a mentira tem diversas faces. Por exemplo, eu adoro ler ficção – histórias inventadas por grandes escritores, mas que carregam tantas verdade sobre a humanidade que sempre fico admirada. Adoro um filme e fico realmente envolvida mesmo sabendo que tudo aquilo é uma mentira muito bem feita. Gosto também do teatro que me dá uma mentir a ao vivo! Mas é claro que também tem a mentira ruim, aquela que ofende, que magoa, que causa intrigas, que destrói vidas, famílias, que inicia guerras… essas devemos deixar sempre longe!

E como dizia Cazuza, “mentiras sinceras me interessam”… Eu sou mais deste time. É muito comum ouvir aquele “eu não minto jamais!” ou “eu digo a verdade doa a quem doer” Ah… eu duvido tanto dessas convicções cegas e bobas! Afinal, o ser humano é tão completo, a comunicação é tão vasta e a nossa língua portuguesa nos prega tantas peças que afirmações assim tão simples precisam ser olhadas com mais cuidado.

O filósofo Nieztch escreveu que “as convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras.” Neste sentido, quem fala que diz a verdade o tempo todo, pode se tornar apenas um convicto de sua própria ignorância. Todo cuidado é pouco…


Crônica lida no programa “Sunset”, da Rádio Ipanema, Sorocaba – SP, agosto de 2018.

Foto: PlayKids


Francine Ramos

Criou o Livro&Café em 2011, é professora de Língua Portuguesa, adora ler e trabalhar com mediação de leitura. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

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