Mas quem realmente está inteiro?

Acredito que não estamos preparados para todos os assuntos. Porque, infelizmente, levamos uma vida à procura de certezas e soluções, tanto na vida profissional, quanto na pessoal. E mais ainda quando falamos sobre os nosso sentimentos. É comum e concordo em certos aspectos, sobre aquilo de não ser uma metade que precise de outra para se sentir completa. Afinal, somos únicos e se não for assim, algo está muito errado.

Mas então, é simples: seja inteiro, encontre outra pessoa inteira e você terá a felicidade no amor! É o que dizem os manuais da positividade, da autoajuda, da vida plena etc.

Será mesmo que conseguimos ser inteiros? O que é ser inteiro, afinal? Essa busca constante da completude do ser humano é coisa antiga. Sempre queremos algumas sensações de que a vida está no caminho certo. Mas de verdade, lá no fundo de você mesmo, você se sente completo? completíssimo? Não lhe falta NADA?

Esse é o ponto, o ser humano é um ser em constante mudança e evolução. E somente quando algo incomoda – algo que falta ou há em excesso, é que nos coloca em movimento. E o estar em movimento é um jeito de ir se completando. Porém, não consigo acreditar que chegará um momento em que eu estarei 100% completa, como se eu fosse uma bateria elétrica.

Está na hora de esquecermos esse papo simplista da busca da metade da laranja ou sobre ser uma laranja inteira antes de mergulhar nos relacionarmos uns com os outros! Essa simplificação das coisas é uma arma perigosa e muito usada em nossos tempos… os debates políticos estão aí para mostrar como é simples resolver todos os problemas… mas com um pouco de bom senso sabemos que não é assim. Tudo é mais complexo, mais intrigante! É isso que torna o ser humanos e suas relações algo tão bonito e intenso!

Podemos estar em alerta para não ser uma laranja sem caldo ou acabar com o caldo de outra pessoa. Isso pode ter mais valor do que carregar a certeza de ser uma laranja completa e sair por aí de peito estufado se achando a perfeição em pessoa.

Todo cuidado é pouco nos relacionamentos, porém, um olhar mais cuidadoso para o seu amor. Um olhar mais atencioso a si mesmo pode resolver muito mais esses nossos problemas sobre sermos inteiros, talvez sejamos todos metades únicas, que não possuem outra parte perdida por aí.

Ah…. o amor! Já dizia, o escritor francês Victor Hugo:

“Abusaram tanto do olhar nos romances de amor que se chegou, por fim, a desconsiderá-lo. Atualmente, é muito difícil alguém ousar dizer que duas criaturas se amaram porque se olharam. Contudo, é assim mesmo que se ama, e não existe outro modo. O resto não passa do resto, e só vem depois. Nada é mais real que esse grande abalo sofrido por duas almas que se comunicam por essa centelha.” (p. 1226)

Assim, encontrar o amor é a definição correta, nada de procurar a metade da laranja. O segredo está no olhar! Procure um verdadeiro olhar!


Crônica lida no programa “Sunset”, da Rádio Ipanema, Sorocaba – SP, agosto de 2018.


Francine Ramos

Criou o Livro&Café em 2011, é professora de Língua Portuguesa, adora ler e trabalhar com mediação de leitura. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

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