A intolerância nossa de cada dia

“Nenhuma paixão é mais forte, no peito humano, que o desejo de impor aos demais a própria crença. Nada também corta tão pela raiz nossa felicidade e nos encoleriza tanto como sabermos que outros menosprezam o que exaltamos. […] Não é o amor à verdade, mas o desejo de prevalecer que levanta bairro contra bairro e faz uma paróquia desejar a derrota de outra paróquia.” 

Essa frase está no livro Orlando, um romance de Virginia Woolf, escrito em 1928 e, infelizmente, ainda representa a nossa sociedade, tão carregada de certezas e ódio. A questão é que estamos sempre dispostos a defender o nosso ponto de vista sobre diversos assuntos, porém, usamos uma estratégia fácil de diminuir o outro, de humilhar o outro, de expôr o outro para que nossas crenças e desejos pareçam maiores, melhores e perfeitas. Porém, se não temos a mínima capacidade de argumentar sem ofender, o nosso caminho está muito errado.

É isso que acontece nas redes sociais. Pessoas querendo prevalecer a qualquer custo, sem ter consciência do ódio que mora nas entrelinhas de suas palavras. E a tela do computador é como um escudo para que o ódio possa ser compartilhado sem riscos.

E se a intolerância é uma ação do ódio. De onde vem, afinal, todo esse ódio? O filósofo Nietzsche escreveu sobre o peso que incomoda no livro A Gaia Ciência. Ele registrou que todos nós estamos cercados de histórias mal resolvidas, conversas inacabadas e perguntas sem respostas. E que sempre há um peso maior que outro, uma dor mais intensa que acaba ofuscando outras dores. Neste sentido, entendo que conviver com os outros e tentar amar pode ser muitas vezes transformado em um processo de dor. E o jeito como transformamos isso para que seja possível viver é jogando esse peso que tanto incomoda em outra pessoa. Assim, de ódio em ódio, esquecemos do amor, por estarmos tão preocupados de fazer prevalecer a qualquer custo os nossos pensamentos e ideias, que refletem apenas duas coisas: 1 – o que conseguimos reproduzir perante as nossas frustrações e 2 – o quanto podemos viver uma vida totalmente superficial.

Marcia Tiburi no livro “Como conversar com um fascista” também traz Nietzsche para refletir sobre esse ódio que tanto afeta o nosso mundo. Segundo ela, “o amor é um afeto aberto para o futuro. O ódio é o afeto fechado para o futuro.”

Não há, como o pensamento simplista e intolerante sempre sugere, uma fórmula simples e óbvia para resolver a intolerância nas redes sociais. Entretanto, buscar um diálogo mais amplo sempre é o melhor caminho. Mas também sei que muitas vezes ficamos cansados. Eu me considero uma pessoa muito cansada, pois das tantas vezes que tentei conversar com os fascistas da internet, me senti frustrada perante minha incapacidade de me fazer entender e ser ouvida. Porém, eu tenho Nietzsche, eu tenho Virginia Woolf, eu tenho Marcia Tiburi e tantos outros filósofos, escritores e artistas que me trazem essa oportunidade de refletir sobre minhas frustrações e transformá-las em afetos positivos. Em amor, em janelas abertas para um futuro mais bonito. Merecemos muito isso.


Crônica lida no programa “Sunset”, da Rádio Ipanema, Sorocaba – SP, agosto de 2018.

Imagem: Mike Campau


Francine Ramos

Criou o Livro&Café em 2011, é professora de Língua Portuguesa, adora ler e trabalhar com mediação de leitura. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

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