Lugares distantes (Andrew Solomon): a busca pela liberdade, diversidade e aceitação

As viagens para lugares distantes e para dentro de nós

Foi com grande emoção e expectativa que aguardei o lançamento do livro Lugares Distantes: Como viajar pode mudar o mundo, de Andrew Solomon, traduzido por Donaldson M. Garschagen e Renata Guerra e publicado em 2018 pela Companhia das Letras. Meu primeiro contato com o escritor norte-americano se deu em um momento muito complicado da minha vida, quando me vi batalhando – e perdendo – contra a depressão e a ansiedade crônica. Na ocasião, fui apresentada ao seu livro de maior sucesso, O demônio do meio-dia: Uma anatomia da depressão, lançado em 2001 e também publicado pela Companhia das Letras em 2014. Na obra, Solomon traz uma abordagem pessoal sobre a sua luta contra a depressão e alia pesquisas e entrevistas para tratar – de forma delicada, mas firme – de um dos temas mais preocupantes e complexos nos nossos dias. Na época, a escrita de Solomon e os seus vídeos no TED Talks fizeram me apaixonar por ele e me deram um alento, um abraço necessário. No ano passado, tive contato com outra obra, Longe da Árvore: Pais, filhos e a busca da identidade, publicado pela Companhia das Letras em 2013, e mais uma vez me vi diante de um relato sensível e forte. Partindo, novamente, de experiências pessoais (Solomon foi diagnosticado com dislexia na infância), o livro é o resultado de uma ampla investigação sobre as tensões entre identidade e diferença em famílias com filhos portadores de deficiências físicas, mentais e sociais, no qual o foco é fazer um extenso ensaio sobre a tolerância e a valorização da diversidade.

Não foi uma surpresa me pegar em lágrimas enquanto lia Lugares Distantes. As mesmas características dos livros anteriores estavam ali: as observações acuradas, as extensas pesquisas, mas também a sensibilidade, a entrega pessoal, as angústias com o mundo ao redor e o mundo interno.

O livro, em um primeiro momento, pode parecer uma coleção de ensaios sobre lugares que o autor visitou ao longo de sua vida. Mas não espere por relatos sobre pontos turísticos, comidas típicas, cenários para fotos no Instagram etc. Aqui, Solomon propõe um outro exercício: narrar suas vivências enquanto viajante e não como turista. E como viajante que passa por países que enfrentaram mudanças dramáticas, por abalos culturais, políticos, espirituais ou sísmicos, e está atento a essas transformações e disposto a estudá-las.

“Comecei a viajar por curiosidade, mas cheguei a pensar que esse ato tem importância política e que incentivar os cidadãos de um país a viajar pode ser tão importante quanto incentivar a frequência à escola, a preservação ambiental e a economia nacional.” (p. 35)

Além disso, o valor da viagem, para o escritor, está em conhecer lugares e pessoas por si próprio, em um exercício de psicologia profunda: “Uma testemunha pode ser mais valiosa que um analista político. Uma testemunha amadora, livre de conceitos tendenciosos, às vezes vê a verdade mais crua. Nunca devemos nos deixar enganar por gente bem-vestida.” (p. 17).

Lugares Distantes é fruto das suas experiências pessoais durante as viagens, mas também de uma investigação jornalística, na qual apresenta dados, entrevistas e fontes bibliográficas. Isso se deve também pela própria formação de Solomon, já que se graduou em inglês e literatura pela Universidade Yale e obteve o mestrado e doutorado em psicologia na Universidade de Cambridge. É consultor de saúde mental LGBT em Yale, professor de psicologia clínica no Columbia University Medical Center, ativista de Direitos Humanos e conferencista. Logo, sua produção reflete suas preocupações com política, democracia, liberdade, cultura, artes, diversidade (principalmente no modo como a temática LGBT é tratada nas diferentes sociedades).

Dessa forma, a obra reúne escritos que foram publicadas em diversas revistas entre 1988 e 2015, com alguns comentários e revisões mais recentes do autor sobre os relatos antes da publicação original do título, em 2016. Por meio dessas crônicas, é possível ir de um leilão de arte contemporânea na Rússia no período da Perestroika e da Glasnost, quando a URSS começou a se libertar do socialismo e de suas censuras para se fragmentar e perder suas identidades em nome do capitalismo, até o renascimento cultural no Afeganistão com a queda do Talibã em 2002, passando por outros locais, como África do Sul, Mianmar, China, Antártida e Brasil. E é sobre a sua narrativa sobre o nosso país, mais especificamente a respeito do Rio de Janeiro, que eu gostaria de me deter um pouco mais.

Andrew Solomon esteve no Rio em 2010, por ocasião do anúncio de que a cidade sediaria a Copa do Mundo de 2014 e as Olímpiadas de 2016. Ele queria mostrar como a capital estava mudando e qual era a “dinâmica em mutação entre os privilegiados e os pobres” (p. 390). A matéria para a revista Travel + Leisure, intitulada “Rio, cidade da esperança”, exemplifica sua visão inicial otimista, na qual o Rio teria o olhar voltado para o futuro, com a habitual imagem de seu povo amistoso e festivo. Entretanto, o escritor, com o seu olhar crítico, debruça-se na observação das desigualdades sociais, representadas especialmente pelas favelas. Para ele, a topografia ditou uma “anomalia social”, e as favelas do Rio “estão espalhadas por toda a cidade, como pedacinhos de chocolate em um cookie” (p. 391). É interessante notar que o autor utiliza verbos no pretérito para mostrar a perda de prestígio e aumento da violência e corrupção na cidade após a transferência da capital para Brasília, em 1960. Ao comentar, desta forma, sobre as lutas entre quadrilhas e a existência de milícias privadas formadas por policiais, parece que todas essas questões ficaram no passado, o que não é verdade, infelizmente.

Solomon analisa, também, a implantação, em 2008, das Unidades de Polícia Pacificadora, as UPPs, nas favelas, e apresenta como, desde o início do programa, as comunidades têm sido ocupadas quase como “atos de guerra” (p. 393). Há uma leitura muito perspicaz sobre esse projeto:

“As forças conservadoras vinham afirmando, havia muito, que o crime poderia ser reprimido pela escalada do uso da força. Em essência, as iniciativas anteriores nas favelas tinham sido verdadeiras conquistas, com todos os moradores tratados como combatentes inimigos, de modo que as mortes extrajudiciais eram consideradas baixas de guerra. Para a perspectiva mais liberal, a violência era produto de uma estrutura social falha e só chegaria ao fim se as injustiças fossem solucionadas; esse ponto de vista gerava programas sociais débeis e uma proliferação de ONGS. A direita era ineficaz por sua violência; a esquerda, pela complacência. A maior qualidade de Beltrame [José Mariano Beltrame, então secretário de Segurança do Rio] está em satisfazer aos dois lados. A direita está feliz com o decréscimo da criminalidade; a esquerda, com a promoção da justiça social. Os ricos estão mais seguros, e os pobres, mais ricos. […] Resta a questão de até que ponto as UPPS protegem a classe superior e até onde realmente melhoram a vida nas favelas. Segurança é um objetivo militar, e garantia, um objetivo social. A segurança pode ser alcançada por meio da violência, contudo garantia requer paz. Será que as UPPS estão contribuindo para a garantia, ou só estão voltadas para a segurança? Até uma ação policial benigna pode descambar para a ocupação militar, principalmente num país que se livrou de uma ditadura há tão pouco tempo.” (p. 394; p. 401).

O olhar de Solomon, ao pensar as UPPs, se volta para as distâncias – espaciais, sociais e psicológicas – que se criaram entre os cidadãos da cidade (ricos e pobres) e entre os cidadãos e o Estado. Ao ter contato com moradores das favelas, incluindo artistas, como o ator e ativista Marcus Vinicius Faustini, percebe-se o rico universo dessas comunidades, suas dinâmicas próprias, que puderam ser acessadas por meio do plano de pacificação. Entretanto, ele não deixou de atentar para as dificuldades que tal projeto acentuou ou não conseguiu superar: o olhar racista (negado pela maioria dos brasileiros, como nota); a falta de investimentos públicos nas comunidades; a corrupção da polícia; o tráfico de drogas; a mercantilização da favela etc. Na versão ampliada do artigo, com considerações feitas em 2014 após uma nova viagem ao Rio, o escritor já se mostra muito mais pessimista, especialmente com a impunidade de crimes cometidos pelos policiais e o enfraquecimento do programa de pacificação. Quatro anos depois, diante do golpe que derrubou a presidenta Dilma Rousseff, da quebra financeira do Rio de Janeiro, marcado pelos escândalos de corrupção entre os seus políticos, da intervenção militar, que só acentua a violência contra os moradores das favelas e não resolve o problema do tráfico de drogas e das milícias, dos assassinatos da vereadora Marielle Franco e seu motorista Anderson Gomes e de tantas outras mortes que seguem impunes, do sucateamento de hospitais, universidades e instituições públicas, que culminou com o trágico incêndio do Museu Nacional no início do mês, quais seriam as observações de Solomon?

Por fim, ainda que o livro trate de lugares e acontecimentos políticos e socioculturais aparentemente distantes de nós (não nos deixemos enganar: tudo é político; tudo é cultura!), as páginas foram me levando cada vez mais para um lugar interno, que nem por isso deixa de ser longínquo, diferente. Ao longo da leitura, foi inevitável não me fazer algumas perguntas. Qual o meu espaço no mundo? Quem eu sou e como eu me defino diante do “outro”? Quais os meus preconceitos e as minhas ignorâncias? Fiquei feliz por tais reflexões, pois por mais clichê que possa parecer – e lançando mão do subtítulo do livro –, viajar pode mudar o mundo sim, já que viajar nos modifica, nos torna mais tolerantes, mais sábios. E essa viagem pode ser externa e interna, pois o conhecimento está dentro e fora de nós! 

“Viajar é um bom exercício tanto para ampliar horizontes como para determinar limites. Viajar reduz uma pessoa a sua essência descontextualizada. Você nunca se vê com tanta clareza como quando está imerso num lugar completamente estranho. […] Viajar torna uma pessoa mais modesta; quem tem prestígio em casa pode parecer irrelevante ou ridículo no exterior. Não se pode confiar na veracidade das próprias opiniões num país em que os padrões são diferentes. Muitas vezes não se consegue entender por que uma coisa é engraçada ali; em outras, não se entende por que é considerada séria. Questionam-se os padrões de humor, de solenidade e até de moralidade. As paisagens familiares protegem do autoconhecimento porque a fronteira entre quem nós somos e onde estamos é porosa. Mas, em um lugar estranho, nós nos tornamos mais plenamente evidentes: quem somos realmente é o que subsiste, no seu país e no estrangeiro.” (p. 30).

E então, quem está disposto a viajar para lugares distantes?

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Bruna Bengozi

Bruna é mestra em História pela USP, redescobriu (e redescobre) o amor pelos livros, pela música e pela vida. Aguarda ansiosamente a queda do capitalismo e do patriarcado. Sofre de "síndrome do impostor".

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