[HQ] Sem volta (Charles Burns): um lugar colorido e estranho

Charles Burns é um ilustrador e diretor de cinema americano, responsável por diversas capas de revistas como a The New Yorker e a Time; seu trabalho mais conhecido é a HQ de terror Black Hole – reeditada no ano passado pela DarkSide. Sem volta, lançado pela Quadrinhos na Cia, com tradução de Diego Gerlach, é um compilado de uma trilogia escrita e ilustrada por Burns entre 2010 e 2014, que, logo nas primeiras páginas, nos tira do conforto com o estranhamento de uma realidade que parece lutar para fazer sentido.

O quadrinho segue a história de Doug em três momentos: enquanto um jovem introspectivo, que faz performances poéticas, e de certa forma esconde-se atrás de uma máscara inexpressiva – e aqui, com várias referências a Tintin – e nutre uma paixão platônica por Sarah; enquanto adulto, tendo que enfrentar as consequências dos atos do passado; e enquanto seu “eu” Nitnit, que, em um momento meio Alice no país da maravilhas, segue o gato Nanquim por um buraco e se vê tentando entender e sobreviver em um mundo bizarro.  É o gato, que simbolicamente tem o poder de caminhar entre os mundos, é esse ser que em muitas mitologias consegue transitar entre os universos e transmitir mensagens divinas, quem guia o protagonista ao pesadelo que, em um primeiro momento, remete a uma distopia cyberpunk, em que os venenos do mundo distorceram as criaturas, e o próprio ambiente em entidades corruptas.

Essas três camadas, passado, presente e alucinação/sonho, são apresentadas de forma não linear, com elementos que se conectam e até se misturam em algumas páginas, mas que se diferenciam pelo traço e pela paleta de cores. As representações fantásticas conseguem interpretar e materializar as contradições e a falta de compreensão de Doug em relação à sua própria vida, tornando mesmo difícil apontar qual dos mundos que habita é de fato o real. A alienação de Doug está presente em ambos, e sua inadequação também; seus traumas são personificados ou ganham totens naquele espaço onírico e subjetivo que precisa atravessar.

“Essa é a única parte que vou me lembrar. A parte em que acordo e não sei onde estou”, é assim que Burns nos apresenta a um personagem com traços mais cartunizados e com ar de perdido. O momento do despertar, como ocorreu com Gregório Samsa, da Metamorfose, é que introduz a possibilidade de mistura de pesadelo e realidade. É partindo disso que ele nos conduz para um lugar colorido e estranho, onde, pouco a pouco, pessoas e coisas vistas e lidas nos momentos de lucidez ganham seus duplos. As questões e as pessoas que muitas vezes são deixadas de lado por Doug ganham maior proporção nas vivências de Nitnit, e funcionam, muitas vezes, como soluções de problemas que ou não são ou demoram a ser tratados no “mundo real”.

É com esse jogo, quase como aqueles dos sete erros, que o personagem lida com questões que o seu eu “não alucinado” não se permite sequer pensar. As mensagens das outras camadas reverberam e ecoam aquilo que ele tenta esconder, revivendo, transmutando e potencializando aquelas imagens em formas e impressões que o engolem, que não o deixam fugir de seus pecados. A transição do conhecido e, em princípio, aconchegante se faz por uma série de portais, sutis, vermelhos e aveludados, como os que nos apresenta David Lynch em Twin Peaks, onde o surreal e o absurdo, se escondem por trás dos acontecimentos mais banais.

Inicialmente, o título passa a impressão de que Doug jamais poderá sair daquele pesadelo, porém, conforme a história progride, há mais camadas de significado sendo adicionadas, passando pela transição por traumas, pela dificuldade de relacionar-se e, pela complexidade de se construir uma identidade, de reviver, de traçar novamente o mesmos caminhos.

Sem volta é uma história sobre amor, descobertas e consequências; ele lida com a culpa e – um possível – amadurecimento, com ligações familiares complicadas e o que, mesmo que indiretamente, levamos delas; ele ilustra uma jornada pelo trauma e por terras áridas, onde a hostilidade e a desconfiança dão o tom das relações.


Resenha elaborada em parceria com Gladius Caglia.

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Vanessa Pessoa

Vanessa é uma feminista introvertida, estuda letras na UFPR e coleciona uma porção de figos maduros que apodreceram aos seus pés. Gosta de livros riscados, lombadas quebradas, café sem açúcar e não sabe muito bem como escrever sobre ela mesma.

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