Ascensão e Queda de Adão e Eva (Stephen Greenblatt): a história e os mitos que nos sustentam e nos aprisionam

Quem me conhece sabe o quanto sou interessada por história, literatura e teologia. Por isso, foi com uma enorme curiosidade que comecei a leitura da obra Ascensão e queda de Adão e Eva, do norte-americano Stephen Greenblatt, lançada em 2018 pela Companhia das Letras, com tradução de Donaldson M. Garschagen, e posso te garantir que não me decepcionei.

O escritor, professor e historiador, vencedor do Prêmio Pulitzer, é um dos principais estudiosos de Shakespeare e do período do Renascimento. Por meio de uma extensa pesquisa e dialogando com a produção de importantes teólogos, filósofos e artistas, Greenblatt nos apresenta a trajetória da história de Adão e Eva ao longo de mais de dois milênios e suas marcas na nossa formação social, cultural e religiosa.

A sua obra se mostra rica ao discutir como Adão e Eva são um dentre vários mitos de origem da humanidade, não sendo nem o mais antigo, nem o mais crível, porém o que teve maior impacto na cultura judaico-cristã ocidental. E isso se deve, também, ao poder das histórias na nossa formação:

“A humanidade não pode viver sem histórias. Nós nos cercamos delas, as criamos ao dormir, as contamos a nossos filhos e pagamos a outras pessoas para que as contem. Há quem as invente para ganhar a vida. E outras pessoas (e eu sou uma delas) passam toda a idade adulta procurando entender sua beleza, seu poder e sua influência.” (p. 10).

Todas e todos nós, em algum momento da vida, acreditando ou não, ouvimos falar da criação de Adão e Eva, da tentação da serpente e da expulsão do Paraíso do Éden. A desobediência à ordem divina para não comer o fruto da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal (fruto este que muitos interpretam como o ato sexual ou, de maneira mais razoável, como a rebelião orgulhosa contra a soberania de Deus de definir o que seria esse bem e mal) teria trazido todas as desgraças que nos assolam até hoje: morte, dor, trabalho pesado, o sofrimento em geral. Dessa forma, a história do casal edênico nos colocou diante de temas que a religião, a filosofia, a psicologia e a arte se debatem até hoje em busca de uma resposta: a origem humana, o significado do amor, do sexo, da perda, da mortalidade, do livre-arbítrio, do mal, da culpa e do desejo.

Greenblatt buscou fazer uma exegese da história descrita no Gênesis, cujas interpretações e usos foram mudando drasticamente. Passando pelo contexto da escrita do Antigo Testamento, pela Patrística – os primeiros teóricos da Igreja, como Santo Agostinho –, pelo Renascimento e, finalmente, pelas descobertas de Darwin no século XIX, o livro destaca que as poucas linhas dedicadas a Adão e Eva foram vistas ora como alegorias, ora como literais, depois como reais e, então, como ficções. Pintores, como Michelangelo e Albrecht Dürer, e escritores, como John Milton, tentaram trazer o casal edênico para a realidade, para os conflitos de sua época. Outros autores foram mais além e viram uma política da igualdade no início dos tempos, logo, o texto foi usado como um protesto social, um meio de questionar, por exemplo, a propriedade privada na Inglaterra no início do século XIX.

Stephen Greenblatt. (Foto Harvard University)

Sobre os usos e abusos da história de Adão e Eva, é necessário destacar o capítulo 7, intitulado “O homicídio de Eva”. A narrativa bíblica deu vazão para a violenta misoginia que perdurou durante séculos em torno da figura da primeira mulher, que seria inata ao mal. Mesmo que, na Bíblia, a figura de Maria tenha servido como um contraste simbólico e como modelo feminino a ser seguido, o ódio contra as mulheres não diminuiu, a ponto de um conhecido beneditino do século XI, São Pedro Damião, devoto de Maria, ter escrito contra “a causa da nossa ruína” em seu Officium Beatae Virginis:

“Ó, vós, cadelas, porcas, corujas uivantes, corujas noturnas, lobas, sanguessugas, [que] bradam “Traz! Traz! (Provérbios 3-, 15-16). Vinde, ouvi, meretrizes, prostitutas, com vossos beijos lascivos, vossas pocilgas para porcos gordos, coxins para espíritos imundos, semideusas, sereias, bruxas, devotas de Diana, se quaisquer portentos, se quaisquer presságios foram encontrados até hoje, devem ser julgados suficientes para o vosso nome. Pois sois as vítimas de demônios, destinadas a ser eliminadas por meio da morte eterna. Por vossa causa, o demônio ceva-me mediante a abundância de vossa luxúria, é alimentado por vossos festins sedutores.” (p. 123).

Não surpreende que as calúnias maldosas contra Eva tenham sido usadas para justificar e reforçar a quase escravização das mulheres. A desumanização destas, assim como ocorreu com a desumanização dos judeus, era um convite à violência, como bem lembrou Greenblatt, alimentando as fogueiras da Inquisição sob as acusações de bruxaria e, ainda hoje, servindo de fundamentação para a inferioridade do gênero feminino e para a necessidade da dominação masculina.

É inegável que, apesar das mudanças interpretativas, algumas questões suscitadas pelo mito de Adão e Eva permanecem ao longo do tempo, pois o relato da origem fala a todos nós. Ele trata de perguntas, que já surgem na primeira infância, sobre quem somos, de onde viemos, por que amamos e por que sofremos. Mesmo a descoberta e o estudo de fosseis antigos da nossa espécie, que sustentam a teoria da evolução, não aplacaram nossas angústias.

Em um momento em que a Bíblia, mais uma vez, tem sido acessada nos discursos políticos, e os debates morais têm se intensificado em ambos os lados, é importante refletirmos sobre como as histórias nela narradas são usadas para nos ensinar lições ou nos prender a correntes; justificar bondades ou atrocidades. Não seria diferente com o poder da narrativa de Adão e Eva:

“Os primeiros seres humanos no jardim das árvores mágicas e da serpente falante retornaram à esfera da imaginação, de onde haviam emergido originalmente. Contudo, esse retorno não os torna desimportantes nem destrói seu fascínio. Eles continuam a ser uma maneira poderosa, até indispensável, para pensar sobre inocência, tentação e escolha moral, sobre apego a um parceiro amado, sobre trabalho, sexo e morte. Transmitem com excepcional vivacidade a possibilidade de uma sedução que leva a pessoa fazer uma escolha cujas consequências catastróficas serão perpétuas. Mantêm aberto o sonho de um retorno, de alguma forma e algum dia, a uma bem-aventurança perdida. Eles têm a vida – a realidade peculiar, intensa e mágica – da literatura.” (p. 256, grifos nossos).

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Bruna Bengozi

Bruna é mestra em História pela USP, redescobriu (e redescobre) o amor pelos livros, pela música e pela vida. Aguarda ansiosamente a queda do capitalismo e do patriarcado. Sofre de "síndrome do impostor".

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