Escravidão: a ferida que precisamos curar (Dicionário da escravidão e liberdade)

Escrevo esta resenha um dia depois da eleição presidencial, na qual foi eleito um candidato que por diversas vezes ofendeu a comunidade negra. No dia 30 de julho de 2018, durante entrevista no Programa Roda Viva, Jair Bolsonaro (PSL) criticou as cotas para negros e negou uma dívida histórica com os afrodescendentes ao afirmar: “Que dívida? Eu nunca escravizei ninguém na minha vida.” Disse, também, que “os portugueses nem pisavam na África, eram os próprios negros que entregavam os escravos” . Em outra ocasião, durante palestra no Clube Hebraica, no Rio de Janeiro, em abril de 2017, o então deputado afirmou que visitou uma comunidade quilombola e “o afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas” e prosseguiu: “Não fazem nada, eu acho que nem pra procriador servem mais” . Recentemente, em entrevista concedida à TV Cidade Verde, do Piauí, e divulgada em 23 de outubro de 2018, o candidato afirmou que não deve haver uma política específica para grupos mais vulneráveis, vítimas de preconceitos e discriminações, e completou: “Tudo é coitadismo. Não pode ter política para isso. Coitado do negro, do gay, das mulheres, do nordestino, do piauiense, tudo é coitadismo no Brasil, isso não pode continuar acontecendo”, disse.

Tais frases, que demonstram uma visão distorcida, preconceituosa e discriminatória, são comuns entre os brasileiros infelizmente. O racismo é latente em nossa sociedade, que ainda prefere “acreditar” na democracia racial e na miscigenação pacífica do que lidar com o nosso passado marcado por muitas diferenças, hierarquia e violência.

Buscando lançar luz sobre a nossa história e nossas ignorâncias, foi lançado neste ano o Dicionário da escravidão e liberdade: 50 textos críticos, pela Companhia das Letras. Organizado por uma das mais influentes historiadoras e antropólogas do Brasil, Lilia Moritz Schwarcz, e pelo pesquisador e professor da UFRJ, Flávio dos Santos Gomes, o livro conta com 50 artigos em forma de verbetes produzidos por importantes especialistas em escravidão e período pós-emancipação.

O foco do livro não está apenas nos aspectos econômicos da escravidão, dentro da conhecida triangulação que uniu Europa, África e Américas, mas também na circulação de saberes, conhecimentos e culturas das populações escravizadas. Além disso, traz análises sobre as revoltas e resistências durante o período escravocrata e também no momento pós-abolição. Assim, o dicionário temático busca tratar de cenários, eventos, processos, culturas materiais e imateriais e personagens que não se perderam completamente no tempo (e nas tentativas de apagamento do passado), mas ficaram à margem da história por conta do preconceito. O livro mostra diversas “faces que compõem o que é um poliedro em movimento” (p. 16), que convida a novas reflexões sobre um tema que persiste nos atuais índices de desigualdade, discriminação, exclusão e violência.

Um dos pontos altos da obra, na minha opinião, além da variedade de abordagens, é a preocupação em olhar a escravidão em outras regiões do Brasil, como no Rio Grande do Sul, Goiás e Amazônia, indo além daqueles esquemas tão comuns nos livros didáticos (escravidão no ciclo da cana-de-açúcar, da mineração e do café), o que mostra tanto a delicada convivência entre indígenas, negros e imigrantes europeus, quanto a dimensão e complexidade da maior migração forçada da história.

O dicionário se soma a outros projetos que visam documentar a escravidão africana, como o Banco de Dados do Tráfico Transatlântico de Escravos, que reúne informações sobre quase 36.000 viagens negreiras que embarcaram, à força, mais de 10 milhões de africanos para serem transportados até as Américas, entre os séculos XVI e XIX. A plataforma pode ser acessada em: http://www.slavevoyages.org.

Não custa ressaltar o quanto a escravidão se enraizou cruelmente na dinâmica do nosso país. O Brasil foi o último a abolir essa forma de mão de obra nas Américas, assim como a colônia que mais recebeu africanos que foram enviados de maneira compulsória e depois distribuídos como escravos em todo o território. Entre 1550 e 1862 (incluindo os envios ilegais), estima-se que 4,8 milhões de africanos tenham desembarcado por aqui.
Porém, ainda estamos longe de saber tudo o que queremos e precisamos sobre a escravidão e os processos libertários, mesmo que os efeitos de quatro séculos de perversidade estejam fortemente presentes em nosso meio:

“Lemos comovidos esses enredos de vidas em cativeiro. Não se estuda o escravismo sem emoção e sem um sentimento de vergonha e remorso. Embora a escravidão seja quase tão antiga quanto o homem na história e esteja presente no desenrolar de quase todas as culturas, é com extrema dificuldade que conseguimos estudá-la como algo que ficou no passado e lhe pertence completamente. A ela se aplicaria a afirmação de que não há história que não seja contemporânea, pois com a régua dos sonhos do presente medimos os sucessos que narramos.” (prefácio de Alberto da Costa e Silva, p. 14)

A diagramação da obra, por si só, merece destaque e reconhecimento. O livro é bem ilustrado e traz dois cadernos com mais de 150 pinturas e fotografias que retratam a escravidão e a população negra, que nos convidam a fazer uma leitura crítica da iconografia produzida, em geral, por viajantes europeus alheios à realidade colonial. Também conta com uma sobrecapa que se abre em um lindo pôster: um mapa produzido por Jaime Lauriano especialmente para esta edição. O desenho foi feito com pemba branca, um giz utilizado em rituais de umbanda, e lápis dermatográfico sobre algodão preto, apresentando-se como uma obra de arte que complementa este importante dicionário. É um meio de mostrar, também, como o artista sente e expressa a dor que constitui a nossa própria história e a força da luta pela liberdade.

Dicionário da escravidão e liberdade não se propõe a ser uma obra definitiva sobre o assunto, mas se coloca como um incentivo para mais pesquisas que devem ser feitas sobre o nosso passado escravocrata. Por isso mesmo, torna-se uma leitura essencial. Nós temos essa dívida histórica. A escravidão é uma ferida aberta em nossa história que precisamos, sim, curar.

“Depois de 130 anos da extinção da escravidão, existem, porém, permanências fortes e teimosas na sociedade brasileira. O racismo continua estrutural no país, e continua inscrito no presente, de forma que não é possível apenas culpar a história ou o passado. A violência e a desigualdade têm na raça um fator a mais, com as pesquisas contemporâneas mostrando como negros morrem antes, estudam menos, têm menos acesso ao mercado de trabalho, contam com menos anos de educação, sofrem com mais atos de sexismo, possuem acesso mais restrito a sistemas de moradia e acompanhamento médico. Por fim, o trabalho escravo, mesmo que informal, está longe de se encontrar extinto no país. Não se escapa ao fato de ter sido a última nação a abolir a escravidão mercantil sem guardar marcas fortes e consolidadas, observadas facilmente nos dias de hoje.” (p. 41).

Dicionário da escravidão e liberdade: 50 textos críticos

Cia das Letras, 560 p. | Organização: Lilia Moritz Schwarcz e Flávio dos Santos Gomes
Prefácio: Alberto da Costa e Silva Sobrecapa: Jaime Lauriano
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Autores dos verbetes: Lilia Moritz Schwarcz, Flávio dos Santos Gomes, Roquinaldo Ferreira, Luiz Felipe de Alencastro, Robert W. Slenes, Beatriz Gallotti Mamigonian, Luis Nicolau Parés, Edward A. Alpers, Eduardo França Paiva, Lorena Féres da Silva Telles, Petrônio Domingues, Ricardo Salles, Martha Abreu, Antônio Liberac Cardoso Simões Pires, Carlos Eugênio Líbano Soares, Keila Grinberg, Jonas Moreira Vargas, Paulo Roberto Staudt Moreira, Marcus J. M. de Carvalho, Hebe Mattos, Marília B. A. Ariza, Luís Cláudio Pereira Symanski, Herbert S. Klein, Tânia Salgado Pimenta, Rafael de Bivar Marquese, Maria Clara S. Carneiro Sampaio, Stuart B. Schwartz, Isabel Cristina Ferreira dos Reis, Carlos Eduardo Moreira de Araújo, María Verónica Secreto, Lucilene Reginaldo, Joseli Maria Nunes Mendonça, Maria Cristina Cortez Wissenbach, Sidney Chalhoub, Robson Luís Machado Martins, Douglas Cole Libby, Cláudia Rodrigues, Wlamyra Albuquerque, Maria Helena Pereira Toledo Machado, Jaime Rodrigues, Walter Fraga, Angela Alonso, Luciana Brito, João José Reis, Marcelo Mac Cord, Robério S. Souza.


Bruna Bengozi

Bruna é mestra em História pela USP, redescobriu (e redescobre) o amor pelos livros, pela música e pela vida. Aguarda ansiosamente a queda do capitalismo e do patriarcado. Sofre de "síndrome do impostor".

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