Um certo capitão Rodrigo (Érico Veríssimo): relacionamento abusivo e abandono social

Geralmente, a preferência é ler o livro para depois mergulhar nas adaptações, seja para o cinema, para a televisão, ou até mesmo para outros tipos de arte. E, acredito, sempre é válido conhecer novos pontos de vista, novas versões para as nossas próprias ideias, concebidas, muitas vezes, no calor da emoção; ou tantas outras, a partir de nossas experiências profissionais, sociais e culturais. Ou seja, a interferência que se pode gerar a partir de uma simples pena que vaga ao vento e pousa em nós pode ter infinitos significados para cada um. Assim, cheguei ao livro Um certo capitão Rodrigo (Érico Veríssimo), tendo em mente algumas imagens da série O tempo e o vento, que passou na televisão, e também uma informação um pouco vaga a respeito de que a obra também envolvia uma história de amor, apesar de seu cunho histórico.


A história faz parte da obra O Tempo e o Vento, composto por três volumes. Nela, podemos conhecer diversas personagens que caracterizam a sociedade da época, com o plano de fundo histórico do Rio Grande do Sul entre 1745 e 1945. Um certo capitão Rodrigo destaca a luta por terras e os poderes sociais, financeiros e religiosos de uma pequena vila fictícia Chamada Santa Fé e a Revolução Farroupilha (1835 – 1845). A cidade, para muitos pesquisadores, é a representação do município em que viveu o autor, Cruz Alta, localizado ao norte do Rio Grande do Sul.

O livro começa com a chegada de capitão Rodrigo à Santa Fé, e a sua postura confiante e provocadora causa desconforto à cidade pacata e controlada pela rica família Amaral. Nesse primeiro momento, já é possível perceber o machismo presente em toda obra – que também representa a sociedade da época, uma vez que os homens exercem seus papeis tão cruéis e exaltadores da violência e do desrespeito em nome da autoafirmação de suas masculinidades.

Capitão Rodrigo, como personagem, cresce ao longo da história para tornar-se um personagem controverso, pois, ao mesmo tempo que provoca as estruturas de poder, tanto financeiras quanto religiosas, o seu comportamento tão confortável na sociedade patriarcal da época o coloca em uma posição violenta perante as mulheres. Ele é um homem que está sempre em posição de dominação, dando vários exemplos de que apenas as suas vontades importam. E, claro, que não devemos desconsiderar o fato que a sua figura é importantíssima para as guerras, pois ele representa as características de um bom soldado.

As relações que Rodrigo cria em Santa Fé também contextualizam a sociedade da época. Temos um padre que o considera perigoso, apesar de demonstrar interesse em compreender esse homem tão dono de sua liberdade. Por outro lado, o padre também toma atitudes que exemplificam a podridão dos poderes religiosos, relacionada ao controle social e o dinheiro.

A família Amaral também é um ponto forte na narrativa, pois o leitor irá conhecer a construção de uma pequena vila e as suas transformações por conta de homens endinheirados que, por isso, conseguem exercer um forte poder no local.

Bibiana Terra, sem dúvidas, é a personagem que acaba falando nas entrelinhas do texto. Ela, que desperta interesse em Capitão Rodrigo, humaniza-o em alguns momentos, mas também o coloca em situações de poder e machismo. Os dois se encontram pela primeira vez em um cemitério, no Dia de Finados, o que pode representar a anunciação de uma tragédia, que envolve os conflitos sociais e políticos da época – evidenciados com clareza durante toda a obra, mas que também se transforma em um aviso das limitações de Bibiana, por ser mulher, por não ter voz, por estar condicionada a aceitar e demonstrar compreensão perante Capitão Rodrigo. É neste ponto que o livro – sendo lido nos dias de hoje – deve ser revisto do ponto de vista do amor. O amor que Bibiana sente por Rodrigo é algo genuíno ou está entrelaçado em fios cortantes na engrenagem patriarcal que a coloca diretamente em uma postura de submissão? Por que, sempre que se ouve sobre a história de Bibiana Terra e Capitão Rodrigo é comum a fala de que se trata de uma grande história de amor? Até quando relacionamentos abusivos serão vistos assim?

Se Érico Veríssimo, em sua obra, quis recontar a história do Rio Grande do Sul, o fez com maestria. Por outro lado, essas entrelinhas dilacerantes, que expõem esse sistema machista tão prejudicial à mulher, precisam ser revistas. Como seria essa história do ponto de vista de Bibiana Terra? Como seria essa história contada por uma escritora?

Um certo capitão Rodrigo é também uma história de abandono. Bibiana é abandonada por toda a cadeia social na qual está inserida. Em níveis macros e micros. A sua solidão pode dilacerar os olhos e para isso ter algum significado construtivo, é urgente a revisitação das nossas obras consideradas como clássicas. Do ponto de vista histórico, Um certo capitão Rodrigo cumpre o seu papel, mas nós, como leitores, também precisamos exercer o nosso olhar sobre o que é o amor, sobre o que é a vida e, principalmente, sobre o quanto é aceito o abandono do homem, enquanto que o da mulher nunca, jamais é compreendido.

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Texto revisado por Bruna Bengozi em 11/11/18.




Francine Ramos

Criou o Livro&Café em 2011, é professora de Língua Portuguesa, adora ler e trabalhar com mediação de leitura. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

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