Sem liberdade, eu não vivo – mulheres que não se calaram na ditadura: um recorte que ecoa em todas nós

Quando terminei a leitura do livro Sem liberdade, eu não vivo – mulheres que não se calaram na ditadura, escrito por Laura Beal Bordin e Suelen Lorianny (Editora Compactos), muitas outras histórias me vieram à cabeça. Algumas, diretamente relacionadas aos governos opressores; outras ligadas à literatura ficcional, mas que também não deixam de retratar as lutas, as conquistas e os sofrimentos daqueles que desejam um mundo de liberdade e democracia.


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O livro é composto por pequenas biografias de seis mulheres da região do Paraná que vivenciaram o período da ditadura do Brasil de diversas maneiras: como militantes, filhas, mães, esposas e estudantes. A cada relato lido, o leitor poderá olhar para esse período – que ainda é tão pouco discutido em todas as esferas sociais de nosso país – de uma forma peculiar. A sensação é de realmente entrar nas casas dessas mulheres e conversar sobre a vida, a sociedade e a política.

Interessante que, a princípio, os relatos conseguiram manter uma certa separação. Mas a cada mudança de capítulo – representando uma dessas seis mulheres, é como se acontecesse uma consolidação desses depoimentos, que vão se juntando nas entrelinhas e transformam o livro em um único instrumento de conhecimento do passado, de previsões sobre o presente e possibilidades para o futuro. Assim, o Golpe Militar no Brasil, ocorrido em 1964, ainda nebuloso para muitos e difícil de falar para quem enfrentou diretamente suas violências, está registrado no livro de forma gradual, suave e precisa.

O livro nos dá a oportunidade de refletir sobre os inícios dos sistemas opressores, mas principalmente sobre o porquê da resistência. Fica a mensagem de que essas mulheres iniciaram suas lutas através de uma certeza genuína quanto à liberdade de seus pensamentos. Cada uma, à sua maneira, trilhou um caminho próprio, porém com o mesmo amor à liberdade e à democracia. Foram vários caminhos de acordo com a vida pessoal e profissional dessas mulheres. Por fim, os caminhos se juntaram para fazer parte efetiva da resistência contra a ditadura, direta ou indiretamente.

Em 1929, Virginia Woolf, em seu livro “Um teto todo seu“, questionou os espaços sociais da mulher na literatura e na sociedade e registrou: “Tranque as bibliotecas, se quiser; mas não há portões, nem fechaduras, nem cadeados com os quais você conseguirá trancar a liberdade do meu pensamento.” Essa frase representa muito a história das mulheres que lutam de alguma forma. Sabemos que, inseridas em um sistema patriarcal, a liberdade do pensamento, muitas vezes, é o que resta diante de tantas exigências, controles e preconceitos sociais. E também sabemos do caminho árduo para conquistar essa liberdade de pensamento, uma vez que também há influencias externas de todas as formas, positivas e negativas. Após o golpe de 64, essas mulheres apresentadas no livro avançaram ainda mais em seus pensamentos e, assim, conseguiram participar de ações importantes para a luta contra o golpe militar no Brasil.

Porém, precisamos abordar as questões dos recortes e dos pontos de vista quando estamos falando de História. Uma matéria, cada vez mais considerada subversiva por fazer as pessoas pensarem, ainda possui em seus principais livros a versão dos homens brancos. O livro “Sem liberdade, eu não vivo” também tem um recorte: é sobre mulheres  brancas de classe-média. É claro que isto, em nenhum momento, desmerece a importância da obra como registro histórico e social. No entanto, como é necessário ficarmos cada vez mais atentos ao que lemos e ouvimos, reconhecer os recortes das produções de ficção e não-ficção é uma forma de mantermos a discussão em pauta: precisamos saber mais sobre a história do ponto de vista das mulheres; precisamos acessar outras histórias e, principalmente, precisamos dar voz a todos os grupos silenciados, por exemplo, as mulheres negras.

Quando li O Conto da Aia (livro de ficção especulativa escrito pela canadense Margaret Atwood), que aborda a repressão de um sistema totalitário e religioso, a personagem principal é uma mulher que, após perder todos os seus direitos (de uma forma totalmente desumana), resiste pela liberdade de seu pensamento e, conforme a história avança, o leitor terá a oportunidade de conhecer outras “aias”, o que me levou à pergunta: o livro é sobre uma única aia ou todas elas juntas? Quando começa uma e inicia a outra? Pensei o mesmo quando finalizei a leitura do livro “Sem liberdade eu não vivo”, pois, de certa maneira, esses relatos também representam uma unidade que se chama “mulher em luta”.

E voltando aos caminhos que trilhamos e suas ramificações e pedras, é necessário exercer o olhar crítico, pois, da mesma maneira que existem mudanças sociais e políticas que retiram direitos, há também aquelas pessoas que – pela liberdade do pensamento -caminham em frente, e um dia, como sempre há, teremos a junção desses caminhos. O nome disso é democracia, o nome disso é luta.

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Revisão feita por Bruna Bengozi em 06/12/18.




Francine Ramos

Criou o Livro&Café em 2011, é professora de Língua Portuguesa, adora ler e trabalhar com mediação de leitura. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

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