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Querida Virginia

Não sei como começo. Parabenizando-lhe pelos seus 129 anos? Eu acredito que sua idade vai muito além desses números, tão eternos para nós humanos comparados à nossa vida aqui e agora. Sua alma é antiga e sábia e deve estar rodando por aí (no céu?) ou em outro corpo que jamais saberei qual é. O importante é saber que sua alma também continua aqui, em cada livro seu, em cada vez que alguém lê sua obra – sublime e perfeita. A alma deve ser algo infinito.

Eu agradeço pelo dia em que o acaso colocou em meu colo um livro seu e agradeço também a sua paciência quando, no início, eu não entendia muito bem suas frases e pensava “essa mulher escreve difícil”. Mas eu soube ser persistente sem ser chata, acredito, pois fui lhe comendo pelas beiradas, saboreando as frases como se fossem feitas para mim, única e exclusivamente.

Agradeço também pelas noites que você me acompanhou e também peço desculpas pelas vezes que peguei no sono. A culpa foi toda minha que num lapso de concentração me peguei em devaneios que não me pertenciam mais e que não mereciam minha atenção. Mas foi justamente esses devaneios absurdos e você, ali do meu lado, que me fizeram compreender o que parecia tão incompreensível ao ponto de eu desistir.

Virginia, obrigada por não me fazer desistir.

Antes de você ter colocado as pedras no casaco você viveu bem, levou uma vida sincera, aproveitou os encontros com os seus amigos, admirou Londres como ninguém, amou e foi amada, trabalhou e produziu obras eternas. Virginia Woolf, você sabe que é eterna? Aí onde você está compreende que, tantos como eu, estão aqui na Terra admirados pelo seu trabalho e também pela pessoa que você foi? Você não foi triste, você não foi infeliz. Virginia Woolf era alegre, era bem humorada, eu sempre digo isso porque me sinto na obrigação de desfazer sua imagem de depressiva. Mas havia realmente uma depressão, sim, eu sei. Mas não era somente isso que fez você ser você. É isso que muitos não entendem, minha cara…

Eu ainda não li toda a sua obra, mas estou quase lá. Minha última leitura foi Orlando. Que belo livro, Virginia! Uma mistura de surrealismo e modernismo. Lindo. Mas não vou me aprofundar em análises sobre a sua obra. Deixo isso para seus amigos que estão aí com você, porque certas observações precisam ser faladas olhando nos olhos. Olhos que piscam, pois os seus são estáticos, mas me fitam através da foto com muito mais vida que meus próprios olhos.

Eu preciso lhe agradecer por muito mais. É um tanto que faz uma bolha de ar sair de meu coração, atravessar meu peito e parar em minha garganta. Quando abro a boca para falar, nada sai. E o agradecimento vira um suspiro mágico que lhe abraça onde quer que você esteja. Obrigada por ser parte de mim, obrigada por me permitir fazer isso.

Essa é minha primeira carta para você. Farei isso mais vezes.

Com carinho,

Francine Ramos

Vídeo: Eu quero ler Virginia Woolf, mas por onde começo?

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Francine Ramos
Editora da Livro&Café desde 2011. É professora de Língua Portuguesa e tenta ser escritora (um conto seu foi publicado na coletânea Leia Mulheres, em 2019). Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

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4 comentários

  1. Ai, que bonitinho!!! Virginia deve ter ficado feliz. Que bom que você a descobriu e gostou. Leituras que nos modificam são mesmo eternas, assim como a Woolf sempre será.

    Bjo!

  2. Que linda esta carta, Fran, tenho certeza que V.W. ia gostar muito de ler! Um bom autor é imortal, pode deixar o mundo, mas deixa para o mundo a sua obra e por isso, vive cada vez que alguém passa os olhos sobre seus escritos. Parabéns para a Virginia!

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