Mal-estar de um anjo (Clarice Lispector): quando não se quer a bondade

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O livro “Para Não Esquecer” de Clarice Lispector é feito de contos, crônicas e pequenos fragmentos que ela produziu. É um livro sem fim, nem meio, nem começo, você pode abrir numa página qualquer e ler alguma coisa, como aquele clássico “Minutos de Sabedoria”. Mas ali tem Clarice Lispector e isso, meu bem, é como, ao abrir o livro, uma locomotiva em alta velocidade passasse por cima de seu corpo. A leitura termina e você fica lá, com cara de que morreu; e renasceu.

Mal-estar de um anjo

Eu gosto muito do conto “Mal-estar de um anjo”, a história é mais ou menos assim: uma mulher procura um táxi durante um forte temporal no Rio de Janeiro e que, por estar enjoada de ser muito educada e ouvir “nãos”, é grosseira com o taxista, por medo de continuar naquela forte chuva: ou você me tira daqui agora ou você me tira daqui agora.

O taxista, fazendo seu papel de anjo, deixa a mulher desesperada entrar em seu veículo, o que a faz reagir com uma certa ternura e surpresa. Enquanto a moça se instala confortavelmente no táxi, uma outra mulher aparece na janela implorando por um espaço no carro. A primeira mulher se vê na segunda mulher: o desespero de estar no temporal, de implorar pelo carro. Então a primeira mulher não hesita em dividir o táxi com a outra.

E o que poderia ser uma história sobre gentilezas, Clarice Lispector nos provoca com a seguinte questão: até onde a bondade é pura e não se transforma em obrigação?

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Durante a pequena convivência das duas mulheres no táxi, a narradora questiona a sua postura espontânea, pois conhecer um pouco aquela mulher que lhe chamava de anjo e exigia muito além de uma carona, a incomodou demais. Ela não aceitou aquela gratidão, pois uma atitude boa e simples resultou num rótulo difícil: sou boa; sou anjo; sou perfeita; nunca posso ser má; não sou humana.

Assim, com um desenrolar de pensamentos, Clarice constrói a tensão da mulher da maneira magnífica e única que só ela sabe fazer. Ou seja, naquela sintaxe toda maluca, que nos faz ser também aquela mulher que arranca a enorme asa de anjo que ganhou sem pedir, totalmente indignada com sua maldade embrulhada nas asas de ser anjo sem querer.

(Eu não contei o final, eu não contei a história. O conto é mil vezes mais do que escrevi aqui.)

“Mal-estar de um anjo” está no livro “Para não esquecer”. Compre na Amazon

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Francine Ramos
Editora da Livro&Café desde 2011. É professora de Língua Portuguesa e tenta ser escritora (um conto seu foi publicado na coletânea Leia Mulheres, em 2019). Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

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