Água Viva, de Clarice Lispector

Eu gosto muito de Clarice Lispector, mas o romance  Água Viva não me agradou. É difícil conseguir explicar por que, organizar em tópicos e discutir as falhas, os buracos, as fraquezas da escrita de Clarice Lispector nesse livro.

A Hora da Estrela (Clarice Lispector): um soco

É difícil porque ler Clarice Lispector não é compreender, é mergulhar num mistério até tocar, mesmo que por segundos, a escuridão da vida. Dói, machuca, agoniza, mas depois se sobrevive e a vida passa a ter mais uma cor, uma cor que não tem nome, que poderia se chamar lispector. Que cor estou hoje? rosa? azul? preto? não, estou lispector. Então, se o livro é mesmo bom ou ruim – não sei. O que sei é que minha primeira leitura não foi legal, não contribuiu, não agregou, não fez de mim melhor, ou pior.

Gosto das palavras de Caio F. Abreu, quando ele descreveu um encontro que teve com a Clarice: “Eu chorei depois a noite inteira, porque ela inteirinha me doía, porque parecia se doer também, de tanta compreensão sagrada de tudo.”

Então eu sei, e como sei o quanto é poderosa a literatura de Clarice Lispector, afinal, um dos meus livros preferidos é “A Paixão Segundo G.H”, onde neste, diferente de Água Viva, a personagem caminha perfeitamente até o ponto em que ela deseja chegar, há motivo para as palavras estarem ali, há motivo para o pensamento dela ser da forma que é: tudo maravilhoso, grande e poético.

Mas em Água Viva não há motivo, está tudo fora do lugar, estranho e infantil, como se houvesse uma fissura entre as frases. Uma fissura; sou eu ou Clarice?


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Francine Ramos

Editora da Livro&Café desde 2011. É professora de Língua Portuguesa e tenta ser escritora (um conto seu foi publicado na coletânea Leia Mulheres, em 2019). Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

10 Comentários
  1. É claro que cada leitor tem uma percepção muito pessoal a respeito de cada livro que o ler. Mas, honestamente, acho que dizer que Água Viva exibe falhas, acho de um grande equívoco para com a obra da Dostoiévski de saias, como a senhora Clarice Lispector, mas que não foi só de você que li semelhante comentário.
    Para mim, Água Viva é o romance mais original que um escritor brasileiro já escreveu, neste caso uma escritora. Porque Clarice usa da sua própria “liberdade” para desafiar o místico e o intocável da (in) compreensão íntima da vida humana. É uma viagem interior em que imaginação e as ideias, se misturam e se confundem, em linhas extremamente sensíveis e mágicas traçadas por uma mulher que sabia como ninguém trabalhar com as palavras de forma primorosa e especial. O fato de não haver enredo não torna o seu romance, um trabalho sujeito a buracos ou falhas. Ela sabia melhor do que ninguém, que o artista, essencialmente um escritor, precisa da mais “pura” liberdade, para, de fato, entregar-se a obra. E Clarice, de fato, se entergou. O resultado chama-se: Água Viva.
    Água Viva é um romance sobre o sentimento humano vivido dentro de um artista, é sobre o desprender-se da realidade concreta e física, para o mergulhar no âmago mais profundo da alma humana, esboçado com as palavras, estas que ela própria desafia (porque a princípio ela demonstra não saber onde “a coisa irá chegar”). Onde a vida interior soa mais “real” do que a própria realidade (em passagem de A hora da Estrela, a própria diz: “a minha vida mais verdadeira é irreconhecível, extremamente interior e não há uma palavra que a signifique), onde se vive e onde se morre, intensamente, e se renasce, como uma fênix, a procura de novas sensações; surgindo-lhe as inevitáveis indagações do porquê de nós existirmos e o porquê de cada coisa ser uma coisa. “porque existiram os dinossauros?”, é uma das perguntas que a personagem (ou ela, a própria Clarice) si faz em uma das passagens do livro.
    Ao meu ver o título Água Viva metaforiza bem o sentido dessa prosa em verso. O que seria Água? Um elemento líquido neutro, puro e sem sabor. Água Viva, diferente do animal marítimo, seria o neutro (o insento de sentido) tomar formas que transcedem o além da significação.
    Bem, desculpe pelo tamanho do comentário. rs Mas é porque era necessário para falar sobre uma obra de caráter tão profundo e elevado como Água Viva. Releia-o não com olhos técnicos e sim desprendida, para se deixar sentir pelas sensações únicas, que até hoje só encontrei nesse livro.

  2. eu li esse livro a pouco tempo e amei, mesmo com o choque que tive ao entra em contado com uma línguagem na qual até pouco tempo era desconhecida por mim, e pelos comentários percebo que por minha idade, ainda inexpêriente, influenciou muito no meu compreendimento, espero que, quando chegar em uma determinada idade possa ter a honra de reeler esse ótimo livro, com a muturidade necessaria para compreeende-lo melhor e, me encantar mais ainda com as obras da Clarice Lispector.

  3. Uma cor de nome Clarice é mais que necessário existir rs. Tem matizes que da alma que só uma cor Calrice poderia dar o tom desses estados!

  4. Francine!! Adorei o seu comentário sobre Clarice!! Sou professora de Literatura e fã também de Clarice Lispector.Quando li Água Viva, há muitos anos, fiquei meio doente !! Acredito que não estava preparada para lê-lo naquela época!! Agora, você falando sobre ele, vou tomá-lo emprestado para relê-lo – agora com os olhos da maturidade!!rsrsr. Costumo dizer que Clarice é um enigma decifrável através das janelas da alma!!! Agora, A Hora da Estrela é tudo de bom!! Sempre que o releio, sinto aquela inveja-branca e me pergunto como que Clarice consegue escrever daquele jeito!! Costumo brincar com o yogurte, dizendo que parece o pote de creme de Macabeia rsrsr!! Quanto ao Caio Abreu , com aquele cérebro brilhante (desculpe o trocadilho), só podia ser amigo-admirador de Clarice e a recíproca também era verdadeira. Sabe, Francine, tenho um exemplar de “Morangos Mofados” (do Caio Abreu) que foi salvo de um incidente que houve aqui em casa e quando vi que ele estava “inteiro” fiquei muito muito feliz!!Adorei conhecer suas ideias brilhantes sobre livros!! Beijos, Diana.

  5. Esse eu ainda nao li. Quem sabe se vc o ler em outra época encontre algum sentido. As leituras sao assim, às vezes nao estamos muito pra elas em determinado momento.

    Beijos!

  6. Achei brilhantes as observações. Li “Água Viva” há uns bons anos e tive a mesma sensação difusa, brumosa, mas no meu caso foi amor à primeira vista, a despeito do estranhamento. É um monólogo que se chamaria “Atrás do Pensamento” (se não me engano), e que vai para todos os lados sem chegar a nenhum deles, né? Vou pegar um fim de semana pra relê-lo, fiquei com vontade. 🙂

    Beijo, Francesinha!

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