aprenda com clarice lispector

É assim que começa! Aprenda com Clarice Lispector

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Eu tenho uma grande dificuldade para começar um texto. Este, por exemplo, está há dois dias como rascunho, tudo porque estou pensando em como começar um texto que fale sobre as belas maneiras de começar um texto. E tudo começou assim: eu estava procurando o conto “A Galinha e o Ovo” da Clarice Lispector para um trabalho da faculdade, durante a busca eu encontrei um outro conto dela chamado “Tentação“, que conta uma história simples, que dura apenas alguns minutos, mas, como todo texto clariceano, ele é recheado de significados existenciais. Além disso, a maneira como Clarice iniciou o texto me deixou maravilhada; uma frase curta, simples, porém completa.

Ela estava com soluço. E como se não bastasse a claridade das duas horas, ela era ruiva.

Numa simples frase sabemos que uma pessoa do sexo feminino está com soluço, faz muito sol, o relógio marca duas horas da tarde e também, para completar a imagem clara que formamos em nossa mente, a moça era ruiva.

Eu imagine um cenário realmente muito claro, uma foto perfeita de uma moça com soluço, com os olhos levemente fechados por conta da claridade e um feixe de luz sobre seu cabelo laranja e parada, olhando para mim, como se disesse: “hey, continue a ler a minha história.” Personagem feita, personagem construída, numa simples frase. Clarice é foda, outros escritores – desses tão comuns e mortais (me incluo nessa) poderiam começar o texto assim: 1.) O relógio marcou duas horas da tarde quando a moça ruiva começou a soluçar; 2.) O soluço não parava e a menina ruiva estava cansada de ficar sobre o sol de duas horas; 3.) etc e tal.

Clarice é foda, o resto não tem graça.

A Hora da Estrela (Clarice Lispector): um soco

Onde comprar livros de Clarice Lispector: Amazon

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Francine Ramos
Editora da Livro&Café desde 2011. É professora de Língua Portuguesa e tenta ser escritora (um conto seu foi publicado na coletânea Leia Mulheres, em 2019). Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

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3 comentários

  1. Oi! Estava com saudades dos teus textos! A correria é tanta que não visitei mais teu blog. Curiosamente, acho que da primeira vez que estive aqui tu falavas da beleza de escrever, de começar e etc.

    Identifico-me bastante com as tuas colocações. E começar é mesmo um problema… eu estou trabalhando como redatora e quando um texto precisa ser publicado…

    A forma que encontrei para agilizar esse processo foi ir jogando as informações como se fosse o meio, para não perder o que é importante, e depois ir desenhando o começo.

    Mas nada que me aproxime do que é a Clarice, longe disso! É claro…

    Abraços,
    Dani

  2. Não sei porque, mas sempre que pego um livro da Clarice empaco. Mas agora até fiquei com mais boa vontade, por conta do seu simples e bom post 😀

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