Quando os olhos piscam

O sol brilhava fosco no horizonte da cidade cinza. Um carro preto cruzava a linha do trem, um carro azul fazia uma curva aberta, quase se perdendo no muro. Do outro lado da rua um homem velho caminhava segurando uma sacola de supermercado. 

Eu estava na sacada, no quinto andar, com meu binóculo a capturar alguma coisa diferente, fora da rotina, mas o quê? O homem velho dobrou a esquina e uma música triste invadiu meu apartamento.

Uma moça corre no sentido oposto ao homem velho que não mais está ali. Alguns minutos a menos, eles teriam se encontrado e eu registraria o momento. Um registro ocular de vidas que não conheço. A vizinha gorda ao lado passa nua pela janela, acho que ela foi desligar o fogão. Sinto cheiro de pizza.

O som parou e meu binóculo é velho. Por quantos anos eu tento capturar alguma coisa boa por essas lentes sujas? A sujeira da lente mistura-se com meus pensamentos, culpa da poluição. E eu preciso preparar o meu jantar. São seis horas da tarde. O espetáculo bucólico do sol acabou, ele não existe mais perante os meus olhos. Espero pela lua.

A moça que corria está me olhando. Eu aceno com a mão, ela acena de volta. Ela usa um vestido branco e seus pés estão escondidos pelo arbusto escuro e baixo da calçada. Será que paro de olhá-la através de meu binóculo? Encaro-a com olhos desprotegidos? Minhas mãos tremem. Um vento forte balança os galhos do abacateiro. Algo aconteceu em minha vida, uma moça está me olhando. O que faço com isso? Preciso escolher. Eu digo a ela, mas sem ela ouvir: suba até aqui, vamos tomar um café. Eu pisco os olhos.

E quando pisco os olhos. E quando pisco os olhos. A rua é deserta.

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Francine Ramos

Faz da Livro&Café parte essencial de sua vida desde 2011. É professora de Língua Portuguesa, adora ler, escrever (um dia vai publicar um livro) e trabalhar com mediação de leitura. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

4 Comentários
  1. Parabéns pelo conto, gostei bastante.
    Acho que todos tem desses momentos de ficar horas e horas olhando para um ponto fico e imaginando alguma coisa, esperando algo sem saber ao certo o que.

    Abraços…

  2. Entendo essas coisas de imaginar olhando para o nada, acontece sempre quando olhamos fixamente para alguma lugar ou coisa e desejamos que algo diferente aconteça na nossa vida. Outro momento da imaginação voar longe é enquanto estou dentro do ônibus, olhando para janela, olhando para o nada, mas imaginando tudo.

    Ótimo conto, Fran, bjão 😉

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