Ele não sabe dançar

A pouco tuitei: Às vezes é necessário parar algumas coisas e começar outras. Não é descaso. É organização para não tornar a vida insuportável. Logo após resolvi comer meus cereais com frutas, mas foi apenas o tempo de preparar meu alimento e voltar pra frente do computador.

Fiquei olhando números e formulas que não mais faziam sentido, a brisa entrava pela janela e já não me causava efeito. Era um estado anestésico sobre aquela planilha complexa e uma colherada de cereal com maça e banana.

Mas o telefone tocou, e como é bom quando o telefone toca. Por sorte não era o celular, que estava logo ao meu lado. Era o telefone lá na sala me chamando. Carreguei meu prato de cereal junto.

Alô. Mãe! Oi, minha filha, o que você está fazendo? Comendo e fazendo um trabalho da faculdade. Filha, você já viu as passagens das suas férias? Ainda não, mãezinha, logo verei. E como está o Giovanni? Ele continua cada vez mais lindo e seu pai, cada vez mais velho e com o hábito de irritar o menino, ontem perguntou à ele quem era o marido da múmia. O Gi respondeu “vô, eu não sei”. Seu pai ficou insistindo e ele repetiu “vô eu já disse que eu não sei isso, estou vendo desenho e o senhor está me atrapalhando”. Levei ele tomar banho e expliquei pra ele não ligar pro seu pai, porque ele está velho, sabe o que ele disse? “Vó, o vô está velho porque ele não sabe dançar”. De onde esse menino tira essas coisas?

Eu parei por alguns segundos, o prato de cereal murchou. Mãe, o Giovanni tem razão no que ele diz. Mas minha mãe emendou outra história. Que ela engordou 1 quilo, que a amiga de caminhada dela não pode mais acompanhá-la e que o meu pai está realmente velho para fazer alguma atividade física com ela.

Eu estava em silêncio, pensando. Ele está velho porque não sabe dançar.

E quando nos despedimos eu fiquei pensando quando foi a última vez que dancei. Senti um certo alívio. Não faz tanto tempo assim, mas sempre é bom dançar. Sempre é necessário parar algumas coisas e começar outras. Não é descaso. É organização para não tornar a vida insuportável. Isso, aos olhos de uma criança é simplesmente dançar.

Avatar
Francine Ramos

Faz da Livro&Café parte essencial de sua vida desde 2011. É professora de Língua Portuguesa, adora ler, escrever (um dia vai publicar um livro) e trabalhar com mediação de leitura. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

7 Comentários
  1. Adorei o post!Engraçado vc falar disso,pois na minha fase de mudança atual eu estou pensando em voltar a dançar.Quem sabe não remoço um pouco? Ah, a sabedoria das crianças!Beijo moça!

  2. Frannnnnnnnnn
    Que delícia ler seus textos novamente!
    Senti até uma certa nostalgia de quando mandávamos uma para outra os textos antes de publicá-los.
    Me lembrei que isso foi no início de nossa amizade e que você me incentivou a ter um blog.
    E justo este texto fala de dançar, Pubão do mau!
    Morro de saudade daquela época!
    A vida muda, as pessoas mudam, mas sou imensamente feliz por nós não termos mudado.
    Mudamos sim, somos talvez mais maduras, com mais bagagem mas nossa essência continua a mesma!

    Seus textos como sempre ótimos! Deliciosos de ler!

    Amo você minha irmã.
    Saudade mosntra! rs
    beijos

  3. Nossa Fran, adorei a relação que você criou entre os dois fatos ocorridos!Genial!
    Muitas vezes não damos bola pro que as crianças falam, achamos que é bobagem, mas elas sabem das coisas muito mais do que nós, pois têm um modo diferente de interpretar os fatos, muito mais interessante e inteligente!

    Sim, é preciso dançar, senão enloqueceremos.

    Beijos!

  4. Francine, que delícia de post! 🙂

    Eu já fiz isso, de estar tão ocupado com algo no computador, que o cereal foi desaparecendo e eu não senti o gosto – isso é péssimo, mas faço muito pouco, e se reparo que estou fazendo, paro na hora e me concentro numa única coisa.

    Adorei a conversa ao telefone, e esse menino parece uma figura! Acho que vi mais profundidade do que deveria nessa frase dele. Por favor, dancemos, porque dança é sinônimo não só de juventude e frescor, mas de vida também, e energia! Mudemos, nos concentremos na nova dança, voltemos à antiga, assim a vida fica menos monótona também.

    Ótima foto pra ilustrar o texto. 😉

    Beijos!

  5. É uma criança que sabe das coisas. Na visão inocente tudo se resume a dançar, mas é a mais pura verdade.
    Quanto ao telefone, detesto que toque quando estou me concentrando em outra coisa.
    Beijo

Deixe um comentário

O seu e-mail não será publicado